Mostrando postagens com marcador notas literárias. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador notas literárias. Mostrar todas as postagens

7 de abril de 2022

A Pós-reunião de ontem no Instituto Histórico

O congraçamento entre confrades, consócios – amigos, enfim – é parte importante da convivência em associações culturais. Exemplos de encontros à mesa, de jantares ou de bar, não faltam para prover a curiosidade de quem se dispuser a escavar antiguidades literárias (ou associativas, que seja). Os jantares do PEN Clube do Brasil são exemplos de gala, pode-se dizer, nesse segmento. Mas contam-se inúmeros outros, de que ficaram registro, aqui e algures.

 

O Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo tem páginas memoráveis (digamos assim) nesses domínios do congraçamento de confrades feitos comensais. E sem dúvida o período áureo dessa espécie de iniciativa é o da presença (e muito mais da presidência) de Miguel Depes Tallon. Miguel, de quem tive o prazer de comentar trechos selecionados da obra para um volume da coleção Roberto Almada, de 2017, era conversador nato, e juntava a essa característica as de bebedor rigoroso e gourmet criterioso. E gostava de companhia. Ao final das atividades presididas por ele no Instituto Histórico não eram raros os convites para que o acompanhassem numa pizza ali mesmo na Avenida República, em estabelecimento amigo. Ou para excursões cidade adentro, até o seu pouso seguro do Bar do David, em Jucutuquara. Ali Miguel congregava consócios e confrades em torno da mesa de comes e bebes, de onde muita coisa memorável saía, atestam-no (até em causa própria) os frequentadores remanescentes.

 

Miguel se foi em 1999, mas o seu espírito agregador continuou na reunião semanal que muito teve do concurso dele e do pessoal do IHGES: o Sabalogos, que, se não com esse nome, até ao início da pandemia de 2020 manteve unidos apreciadores sabadais do papo e do copo – mas aí, e melhor dizendo, da xícara de café. E as reuniões gastronômicas vindas daquela época (e inclusive com direito a ata), os memoráveis almoços de sábado, se mantiveram no tempo, mesmo rareados pela falta de alguns frequentadores mais assíduos e mais entusiasmados dentre eles, que assim é a vida.

 

De tudo isso conclui-se fazer parte de uma certa tradição no IHGES o esticar o assunto, a convivência,

enfim, para depois das reuniões, prosseguindo até algum canto da cidade naturalmente acolhedor no quesito estabelecimentos etílico-gastronômicos. A Jucutuquara da predileção do Miguel, terra do Barão de Monjardim e da escola campeã do carnaval, é um deles - reúne, um defronte ao outro, dois pontos propícios ao alargar da conversa entre confrades cansados da labuta histórico-geográfica. Por ocasião da terceira reunião do IHGES no ano de 2022, no dia em que caiu a exigência das máscaras, fomos homenagear o Miguel no bar em frente ao “seu”, o Bar do Ceará, dos pastéis famosos. Não era data especial que se comemorasse: fazia não redondos setenta e três anos e alguma coisa de seu nascimento e vinte e dois anos e alguma coisa de seu falecimento. A homenagem se fazia mais ao aludido exemplo de conversador e comensal que era o Miguel, qualidades imprescindíveis nessas ocasiões. E foi devidamente lembrado e homenageado pelos presentes, a maioria seus companheiros de reunião no Instituto Histórico daqueles dias. Brindamos a ele, nem todos bebemos à sua memória, que os tempos são outros e a Lei Seca está em vigor. Mas quem sabe não estivesse ele por ali à espreita, com o sorriso bonachão que esboçava no prazer de ver-se cercado de amigos, bebessem ou não com ele. 

 

Olhe por nós, presidente Miguel, pela nossa casa que retoma com força as atividades. E agora com o calor da presença dos associados, a que brindamos ontem e como deve ser sempre.                




8 de maio de 2021

Por terras do Espírito Santo

 


Meu pai deixou Vitória ainda jovem para se estabelecer em Colatina. Como funcionário do Banco do Brasil, tirou o curso de Direito pela então Faculdade de Direito do Espírito Santo e ingressou no serviço jurídico do Banco naquela cidade. Encerrou as atividades, depois de 36 anos de serviço, como assessor jurídico regional do Banco do Brasil no Espírito Santo, na última graduação da carreira.

Na assessoria jurídica do Banco em Vitória chefiava um corpo qualificado de advogados cuja amizade sobreviveu à relação de trabalho. Recebendo pressões para se aposentar, pois que ocupando o posto que ocupava travava a ascensão funcional dos colegas, foi sucedido no cargo de chefia por outros ilustres advogados, entre eles o hoje ministro do Superior Tribunal de Justiça João Otávio de Noronha.  

Paralelamente à sua atuação funcional patrocinava causas particulares - desde que, claro, não envolvessem interesse do empregador. Combativo, tinha grande capacidade de apreensão e de síntese. Sua capacidade de trabalho e sua cultura jurídica eram reconhecidas por julgadores e pelos adversos.

Recordo-me, por alto, de ações que patrocinou, entre elas a de um proprietário de posto de gasolina em Colatina litigando contra a poderosa Esso Brasileira de Petróleo. Derrotada nos tribunais, a empresa impressionou-se tanto com a tese defendida que lhe ofereceu contrato para que a defendesse em outras ações semelhantes. O êxito nessas demandas fez com que quisessem levá-lo para a sede da empresa, na capital paulista, o que recusou. Seu amor pela terra natal falava mais alto, nunca tendo concordado em alçar voos por céus que não fossem os do Espírito Santo.    

Tive oportunidade de acompanhá-lo por comarcas do interior do Estado, aonde ia para acompanhar processos e atender a intimações. De algumas dessas viagens ainda me recordo. Embora fosse muito novo, lembro de uma ocasião indo a Santa Teresa no nosso fusca verde claro, ano 1963, que ficou na família até 1974. Não sei por que cargas d’água o cliente do meu pai ia comigo no banco de trás - provavelmente porque ia alguém no banco do carona. Paramos num estabelecimento de beira de estrada para um lanche. Prosseguindo viagem, as curvas da estrada começaram a me fazer mal, e a tal ponto que em dado momento não consegui mais controlar o mal-estar e vomitei. Justamente sobre o cliente do meu pai, cujas calças receberam a maior parte do refluxo. Meu pai aborreceu-se, perguntando por que não tinha pedido para parar o carro. Desculpava-se com o cliente, emprestando-lhe o lenço para ajudar na tentativa de limpeza em que este se ocupava. E que, para minha gratidão, foi quem pôs panos quentes: “ora, dr. Gélice, é uma criança, não se incomode com isso”. Meu pai me socorreu com o que restava do lenço e prosseguindo viagem, não sei quanto tempo mais adiante conseguimos um lugar para nos lavarmos, eu e o cordato senhor.

Mais ou menos por esta época foi a primeira vez que interrompi minhas preocupações infantis para pensar em Direito. A Faculdade de Ciências Econômicas de Colatina, recém-fundada, funcionava no bairro São Vicente, próximo ao cemitério. Recebiam na ocasião um professor de fora, que tinha ido realizar uma atividade acadêmica qualquer. Meu pai o ciceroneava. Fomos, então – eu junto – mostrar a cidade ao visitante, no nosso fusca 63.  Percorremos a região de Vila Lenira, onde, lá no final do bairro, vivia a nossa lavadeira. Na volta do recanto o assunto tinha recaído sobre ela, inclusive um problema que enfrentava, na área de sucessões ou de vizinhança. Sei é que meu pai expunha os fatos, e então, animadamente, indagou ao visitante: “o senhor, professor, que gosta de Direito, como resolveria a situação”? Palestravam ambos animadamente; eu, olhando a paisagem, pensei com os meus botões: “como é que alguém pode gostar de Direito”? E continuei nos – com certeza – graves pensamentos que me ocupavam a mente durante o passeio.       

De outra vez meu pai tinha afazeres a tratar, pelo Banco do Brasil, em alguma comarca do norte. Nesta época chefiava a assessoria jurídica do Banco na região norte do Estado (havia outra chefia no sul, em Cachoeiro de Itapemirim). Recordo-me que, eu muito jovem (são passados mais de quarenta anos), me convidou a acompanhá-lo. Na viagem passaríamos pela localidade de Montanha, onde no restaurante de um amigo dele almoçaríamos, com direito a cupim de boi – o móvel do convite. A propósito, o cupim é o corte de carne da parte dianteira do gado bovino, localizado atrás do pescoço nas raças zebuínas. Fibroso, a gordura fica entremeada nas fibras, o que lhe confere grande maciez e sabor. A esta altura da vida eu nunca tinha provado, e meu pai queria me proporcionar a experiência.

Pois viajamos. Cumpriu as tarefas que tinha a cumprir e fomos até o restaurante em Montanha, de que me lembro vagamente. Sentamos, salvo engano mais alguém na mesa conosco, e o pedido foi cupim. Ao que o garçom respondeu que infelizmente não tinham cupim naquele dia. Não sei qual de nós dois ficou mais desapontado. De qualquer sorte comemos um belo churrasco, que tratei de elogiar para amenizar um pouco o sentimento de frustração que lhe transparecia dos modos, me lembro bem.

Já em Vitória, na assessoria jurídica regional do Banco, patrocinou uma ação de inventário numa Comarca do Sul, salvo engano Venda Nova do Imigrante. Eu cursava o terceiro ano do segundo grau, estava às portas do vestibular para Engenharia. A ação judicial tratava-se da sucessão de um cidadão suíço, assassinado por motivo de terras – o que reforçava a sua prevenção contra sítios e chácaras e fazendas. Íamos acompanhados de um outro advogado, que seguia no banco do carona. Era uma manhã bonita, a viagem transcorria agradável. Chegamos à Comarca, fomos ao Fórum e nos dirigimos ao cartório. É a primeira lembrança que tenho de esperar no balcão para consultar um processo. Espera, aliás, muito rápida, provavelmente se tratava de um dos processos mais notórios da comarca. Na época não tinha como saber que esta - manusear processos - seria a minha ocupação de toda a vida.     

 Meu pai é hoje nome de rua num novo bairro de Colatina e dá nome ao Diretório Acadêmico das Faculdades Castelo Branco: Diretório Acadêmico Gélice Aucyrones d’Oliveira Neves. As lembranças que guardo dele, além de um ou outro caso de que não recordo maiores detalhes, compõem espécie de relicário pessoal onde identifico a gênese do meu interesse pelo Direito e da minha curiosidade pelo Espírito Santo. No meu primeiro romance publicado, o Memória Repartida, cuja ação se passa numa Vila às margens de um grande rio no noroeste do Espírito Santo, fiz a ele uma homenagem por conta dessa sua labuta profissional pelo interior do nosso Estado.

Grafei na Dedicatória:

“AO MEU PAI, que como advogado do Banco do Brasil viveu uma parte da vida a serviço em terras do noroeste do Espírito Santo, leste de Minas Gerais e sul da Bahia. Muito provavelmente esteve na Vila e conheceu os seus habitantes, como conheceu o autor destas notas.”

26 de dezembro de 2019

Breves reflexões aeroportuárias


Antigamente quem viesse a Vitória pelo ar pousava na água, no cais do hidroavião, em Santo Antônio. Consta que até Saint-Exupéry o fez. Mas esta maneira que hoje se pode considerar bucólica de chegar durou pouco tempo: com o fim da Segunda Guerra os hidroaviões se tornaram obsoletos para transporte de passageiros. Sobreviveram muitos anos em operação na Amazônia, onde os Catalina em alguns lugares continuaram representando a única maneira de chegar.
Não era o caso de Vitória, onde havia necessidade de expandir a operação de voos comerciais. O local do campo de pouso foi escolhido por um engenheiro de uma empresa francesa no local onde desde a década de 30 funcionava o aeroclube da cidade. Integrando a lista de aeroportos que entraram no convênio firmado entre os governos brasileiro e norte-americano para cessão de aeródromos durante a Segunda Guerra Mundial, o projeto foi elaborado pelo Exército americano e executado pelo Ministério da Aeronáutica. Inaugurado em 1946, encampado pela Infraero em 1975, só em 2006 o Aeroporto de Vitória recebeu denominação oficial: Aeroporto Eurico de Aguiar Sales.
Vitoriense da gema, político e advogado, Eurico Sales (1910 – 1959) foi secretário de estado no Espírito Santo e ministro de estado no governo Juscelino Kubitscheck. Especialista em Direito Comercial, foi professor da Faculdade de Direito do Espírito Santo. Há um busto seu, em tamanho mínimo, num recanto do novo aeroporto, inaugurado recentemente e que realocou Vitória na rede aeroportuária brasileira. Ano passado propôs-se projeto de lei para mudar o nome do aeroporto para Augusto Ruschi.
Particularmente nada contra o naturalista, pelo contrário. Acadêmico da Academia Espírito-santense de Letras (segundo ocupante da cadeira 25), estudioso e militante, Ruschi é merecedor de qualquer homenagem que se lhe possa fazer. Mas sem dúvida essa proposta de alteração da denominação do aeroporto demonstra como a fama é volátil.
A fama nada mais é que a repetição do nome. Mas o que é válido, o que é relevante, para uma geração, não o será necessariamente para a próxima. Isto se dá em todos os campos da atividade humana, e os escritores sabemos bem disso. Para que a fama permaneça, devem a personagem e a obra resistir à releitura que lhes fazem uma geração após outra. Para tanto, é necessário que a figura e a obra sejam relembradas, ou não estejam esquecidas: senão em evidência, ao menos dela cuidem os ciosos pela memória ou os que influem na formação da opinião pública. A reflexão, então, é: será justo que pouco se saiba sobre um proeminente homem público do Espírito Santo como foi Eurico Sales? Convenhamos, nem tão pródigo assim é o Espírito Santo em matéria de Ministros de Estado...
Fato é que, já há algum tempo, o padrão “homem público” pouco diz ao público, a não ser em termos financeiros (visando à transparência, o salário consta logo após a menção do cargo em matérias de jornal). Importam ao público as realizações em outros campos, o que é normal que aconteça, ao sabor das flutuações da opinião pública. Em defesa de Eurico Sales, lembremos ter sido secretário de estado exatamente da Educação e Cultura, o que pode tornar mais palatável o seu perfil aos dias de hoje.
Talvez se possa resolver a questão dando o nome de um ao terminal de passageiros, do outro ao terminal de cargas. Não sei, trata-se de negócio público, dos afazeres de homens públicos. Para não destoar dos tempos que correm deve-se proceder à crítica sem necessariamente conhecer o assunto, já que a liberdade de expressão é sagrada e as redes sociais aí estão para isso mesmo.
Uma segunda reflexão diz respeito à interessante origem do aeroporto: como dito acima, deve-se a escolha do local a engenheiro francês, o projeto a engenheiros norte-americanos. Ambas as nações envolvidas nos primórdios da atividade aérea, não tivesse o voo tido por pioneiro de Alberto Santos Dumont acontecido na capital francesa, desafiando a fama do voo que na América fizeram os norte-americanos irmãos Wright.
Trata-se de discussão para muito mais de metro. Da qual, frequentador de redes sociais que sou, prefiro apegar-me a faceta secundária, que é a prática de qualificar Santos Dumont como “franco-brasileiro”. Creio que se assim fosse, a máquina de propaganda francesa já teria entrado na disputa pela hegemonia dos primórdios da aviação. Claro, fosse eu especialista, saberia que, na França, consta que Clement Ader já havia voado num mais-pesado-que-o-ar, em segredo militar, desde 1890... mais lenha na fogueira.  
Recorda-me uma vez ter passado a noite no Aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro, esperando a chegada do meu filho Miguel, que se daria por volta das cinco horas da manhã. O primeiro voo de Vitória chegaria lá depois do horário do desembarque e o miúdo teria de ser entregue a alguém na chegada. Um aborrecimento no dia, mas que, hoje vejo, me credencia como especialista para falar de aeroportos. Ao menos em redes sociais, para onde, com a permissão do destinatário original, pretendo remeter esta breve reflexão. 

(publicado no Escritos de Vitória, n.º  34: Aeroportos)

24 de novembro de 2019

Ecos de Ecoporanga



Daqui, Ecoporanga é longe à beça. Muito além de onde o vento faz a curva. Município de grande extensão, encravado nos interiores do vizinho Minas Gerais, ou vice-versa. O distrito da sede tem seus encantos; o clima não é todo o tempo tórrido como se pode pensar.

Território de ocupação recente, recortado da serrania vigorosa que lhe domina o relevo, a economia é quase toda agrária. Lugar de camponeses, ocupantes de uma terra por quê tiveram de lutar renhidos. Os distritos – Imburana, Prata dos Baianos, Santa Luzia (antiga Patrimônio dos Pretos), Cotaxé, Muritiba, Joaçuba – todos pejados de história. E de histórias.

A propósito disso, diga-se que Ecoporanga é terra literária como poucas no Espírito Santo. Escritores pintaram a terra e as suas histórias em estilos diversos. Luzimar Nogueira Dias historiou a luta pela terra no jornalístico Massacre em Ecoporanga; Adilson Vilaça compôs páginas de ficção-mas-nem-tanto sobre tipos e fatos e ocorrências no já quase-clássico romance Cotaxé e nas crônicas ligeiras de A trilha do Centauro; fez ilações de cunho sociológico no ensaio Cotaxé: a reinvenção de Canudos, publicado pelo Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo em 2007. Mais recentemente, Saulo Ribeiro dá sentido à road-busca das personagens d’Os incontestáveis fazendo-os cruzar reminiscências do esquecido Estado União de Jeová, erguido naqueles rincões. Passagem essa estudada por André Luiz Gomes de Souza no História do Estado União de Jeová, publicado pelo Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo em 1998 e que gerou documentário de mesmo nome dirigido por Joel Zito Júnior, sob a supervisão de Vilaça.  

A saga do Cotaxé, passagem pouco conhecida da História do Espírito Santo, se revela ao interessado tão violenta quanto obscura. Época - nem tão distante assim - de disputa grande pela terra, envolvendo estados limítrofes. Tempos do contestado, daqui também, como o outro lá do Sul, entre o Paraná e Santa Catarina. O nosso durou anos e inspirou outros escritos ilustres – caso do Bangue Bangue do café, coleção de contos do jurista Ezequiel Ronchi Netto ambientado na Barra de São Francisco agreste dos primórdios.

Todo esse sertão do Espírito Santo é quase que desconhecido pelo litoral. Andando pelos interiores, a serviço do Tribunal de Justiça ou por conta de atividades culturais, me dou cada vez mais conta desse fato. 

Por isso aderi de imediato ao convite formulado pelo confrade Adilson Vilaça para ir a Ecoporanga, preparar terreno para a realização do I Festival da Memória do Município. Num sábado muito cedo saímos de Vitória, além de mim e do confrade Adilson, o confrade João Gualberto e mais o fotógrafo Apoena Medeiros. E fomos nós rumo norte, num dia chuvoso e movimentado.

Muitas horas de estrada depois Ecoporanga me foi aconchegante, nas circunstâncias. Acomodamo-nos no hotel, no centro da cidade, e logo partimos em demanda dos recantos e das histórias que fomos cercar. Adilson é conhecido feito vereador bom de voto, bem recebido onde quer que ande. Ou pare. E assim paramos e nos achegamos a vários endereços, de gente boa e hospitaleira. Em Imburana mastigamos excelente biscoito de polvilho em casa de dona Geralda Maciel. Soubemos reminiscências dos tempos da revolta camponesa e a participação da anfitriã.

Rumo ao Cotaxé, ao pé da Pedra da Viúva, de que ouvimos a explicação geográfica - a última montanha de uma série de ocorrências daquele relevo acidentado, a Serra dos Aimorés - e a popular - o casal de índios aldeados lá no cimo, de que o marido se finou primeiro, deixando a viúva saudosa. Cotaxé foi o centro administrativo do Estado União de Jeová, autoproclamado estado encravado nos anos 1950 entre terras disputadas pelo Espírito Santo e Minas Gerais, sob a liderança do baiano Udelino Alves de Matos. O povoado, ensimesmado, guarda aura de capital-de-história-surpreendente, que lhe desmentem o tamanho do território e a quantidade de viventes. 

Lá nos abancamos na pensão Primavera, de dona Nelci, bem na praça principal. Sabendo da procedência dos visitantes e do móvel da visita, trouxe de lá de dentro livros de autores a quem conheceu. Alguns, mesmo, tendo ido se hospedar lá com ela: Renato Pacheco e Luiz Guilherme Santos Neves, Luzimar Nogueira Dias, Adilson Vilaça, Saulo Ribeiro.

A conversa era boa. Lembranças, de fatos e de conhecidos, história local, casos – cuidávamos para não demorar demais. Próxima parada, distrito de Santa Luzia, antigo Patrimônio dos Pretos, que, esclareceu Adilson, nosso cicerone, tem capoeira famosa. Fato: na praça principal do povoado, um clube, local de prática da arte marcial, diz uma placa.

No outro dia pela manhã Prata dos Baianos, também distrito intimamente ligado à história do Estado União de Jeová, onde morador idoso visitado por nós, que conheceu Udelino, guarda o jeito do folguedo do Roubo da Bandeira. Boa prosa com o mestre e esposa, logo de manhã cedo de um dia fresco e de céu encoberto. Por último, uma ida à surpreendente Comunidade Veloso, entre Ecoporanga, Nova Venécia e Vila Pavão. 

Locais carregados de histórias, é de repetir. História de povo pobre - é jeito de ver a coisa -, mas também história de povo digno e trabalhador. Por isso mesmo, cioso de seus direitos e da sua importância no mundo.                       

Naquelas lonjuras do que se pode chamar sertões do Espírito Santo, uma comunidade diversa, tão afastada dos modos do litoral. Ficamos de voltar coisa de um mês depois, agora oficialmente, para festejar a todos. Infelizmente, foi-me impossível fazer o caminho de retorno.

Duas visões complementares me ficam dessas últimas visitas à cidade: na penúltima estive a trabalho, visitando os arquivos judiciários da Comarca, constatando-lhes a boa disposição e a funcionalidade. O que se faz necessário, num lugar de tamanho apelo histórico a pesquisadores e visitantes. Da última, o contato com a população, pessoas que no fim das contas têm parte das suas vidas documentadas nos autos dos processos que inspecionei.

Voltar lá é necessário. A essa porção do Espírito Santo integrada com sacrifícios, cujo modo-de-ser enriquece sobremaneira esta terra. Digam-no os que de lá tiraram - e continuam a tirar – registros que empolgam, contribuindo para integrar-lhe as riquezas ao imaginário da nossa gente.  

15 de outubro de 2019

Primeiro dia de aula



Minha vida pública a comecei lecionando. Lecionei Instituições de Direito Público na então Faculdade de Ciências Econômicas, de Colatina, no tempo em que era funcionário do Tribunal de Justiça do Espírito Santo. Dita faculdade viria a fundir-se à Faculdade de Filosofia de Colatina, a mais antiga instituição de ensino superior do interior do Espírito Santo, para formar as Faculdades Integradas Castelo Branco, centro de ensino de reconhecida importância no norte do Estado. De minha parte atuei ali quatro anos letivos completos, e neste curto período tive o prazer de paraninfar uma turma. Deixei o magistério em 1994, por conta da aprovação no concurso para a magistratura de carreira.
O início se deu assim: vinha eu substituindo na matéria de Legislação do Trabalho por ocasião de impedimentos do professor titular, até que “herdei” a cadeira de Instituições de Direito Público deixada pelo professor Manoel Alves Rabelo, que ia às vésperas de ser promovido a desembargador do nosso Tribunal de Justiça.
O fato é que, ao assumir a cadeira, tinha pouco conhecimento de didática superior, que estudei por minha conta. Com a ajuda de minha mãe, Mestra em Educação, montei um planejamento de aulas e do desenrolar do próprio curso, cuja grade curricular me fora passada. Assim, por ocasião das primeiras reuniões de professores, não estaria tão “cru”, como de fato.
Era uma experiência nova que aceitei sem pestanejar, com a coragem inconsequente dos vinte e quatro anos: é que sendo meu pai, à época, diretor da Faculdade, este fato me parecia uma faca de dois gumes, tanto podendo me granjear simpatia como antipatia de parte dos alunos. Mas eu contava com um trunfo: paralelamente às atividades profissionais, era na época guitarrista da banda Urublues, já bastante conhecida por conta das aparições numa mídia em sua maioria simpática à nossa presença no cenário cultural capixaba. O que me garantiu, à partida, uma até certo ponto surpreendente boa vontade por parte do corpo discente. Havia, ainda, um outro fator, para que, a princípio, não atentei: era eu o professor mais jovem das turmas de Administração e Ciências Contábeis.
Este fato acabaria me trazendo uma maior facilidade na comunicação com as turmas (quatro turmas dos segundos anos), compostas em sua maioria por alunos na faixa dos dezenove, vinte anos de idade. A proximidade de ideias era maior entre nós que entre eles e os demais professores, todos profissionais consagrados e calejados nas respectivas ocupações. Tanto que, a certa altura, servi como “intermediário” entre as turmas e a direção, a da Faculdade e a da entidade mantenedora, a Fundação Educacional Presidente Castelo Branco. Tudo isso me veio a cogitação aos poucos, mas o impacto que causaria nos alunos a presença de um professor tão próximo a eles em idade me foi escancarada já no primeiro contato com uma turma.
Era a primeira aula na primeira turma que me fora confiada. Tinha preparado uma explanação sobre o Direito Público, do que se tratava e como pretendia transmitir o conteúdo. Falei-lhes da minha didática, dos recursos didáticos que empregaríamos, dos critérios de avaliação que adotaria, copiei no quadro a ementa da matéria e a bibliografia indicada e uma vez mais olhei para a turma. A sala cheia, o calor das noites de verão em Colatina abalado levemente pelos ventiladores de teto. A turma impassível, os olhos pregados em mim. Nada quebrava o gelo, apesar do calor. Na primeira fila as meninas, que deviam ser as estudiosas da sala, ao fundo os rapazes, também eles em silêncio e numa estranha atenção, talvez aguardando no que iria dar aquilo tudo. Mais tarde eu aprenderia a não me meter com essas meninas da primeira fila, que trocavam cochichos e bilhetinhos entre elas em meio a risinhos. Falei sobre isso com um professor mais velho, de como esses bilhetinhos passando de mão em mão às vezes me incomodavam, tirando a concentração, e dele aprendi: “melhor nem ficar sabendo o que elas escrevem nesses bilhetinhos. Geralmente é sobre professores; pode até não ser nada, mas duvide”. Conselho este que sempre segui.
Mas nesta ocasião não houve cochichos, não houve bilhetinhos passados de mão em mão. A classe impassível, nenhuma interrupção. Olho para o relógio e estávamos no final do tempo, tinha falado por quase duas horas. Finalmente, dando a explanação por encerrada, perguntei se estava tudo entendido. Silêncio. “Alguém tem alguma pergunta?”, insisti. Em meio ao silêncio, uma moça na primeira fila ergue lentamente a mão. Encorajei-a: “Pois não, minha filha, qual é a dúvida”? Ao que ela sapecou: “O senhor é casado”? 
A gritaria que se seguiu nos tornou logo bons amigos, ao desmontar (eu diria, espancar) aquele gelo inicial de parte a parte.
Era o início do que se augurava uma promissora carreira docente...      

P.S. a foto, da época, é da querida amiga e ex-aluna Nete Schimith. E a propósito, não foi ela que fez a pergunta...   

5 de outubro de 2019

Conviver aos sábados



Sábado traz consigo aquele jeitão de melhor dia da semana. Relaxa-se da correria dos dias de trabalho e de quebra tem-se pela frente o domingo, um descanso de eventuais excessos praticados no dia livre.
Sábados foram por muitos anos o dia quase-sacro dos encontros na extinta Livraria Logos, na Praia do Suá. Iam todos para lá, e se fosse o caso se acomodavam à volta da minúscula mesa. Que passava a epicentro da reunião, de onde “irradiavam” todos pelos recantos e prateleiras de livros. Tudo à volta do “Recanto Renato Pacheco”, na parte de trás da loja, assim batizado em honra ao frequentador que pôs nome nos tais encontros – Sabalogos.
Foram quase vinte e cinco anos, sábado após sábado, no mesmo horário, no mesmo local. Ia-se quando se podia, mas a maioria dava jeito de poder sempre. Houve, sim, ausências ao longo do tempo. Uns se mudaram, outros nos faltaram. E dada altura faltou o local, e mudou-se o local. E houve mais ausências, daquelas definitivas, e outros afazeres foram absorvendo aos poucos.
Dali muitas vezes saía-se para o almoço. E eram sempre excursões gastronômicas, porque havia connoisseurs de tudo: de vinho a massa, de cerveja a bacalhau, de quindins a doce de leite. Era trabalhoso o processo de seleção do local aonde iríamos: rodadas de votações, reiniciadas sempre que chegava retardatário disposto a ir também. De alguns desses repastos lavrou-se ata, que estão pela internet.
Vez em quando o Facebook lembra alguma postagem - são fotos e fotos internet afora. Vez ou outra quem saía antes do registro reclamava ao vê-lo (o registro, não a sua pessoa) postado em rede social. Se tinha saído pra ir lá, como explicar em casa a ausência? Toilette, claro, sugeriam. E assim qualquer atitude se recriminava, postasse-se a foto, não se postasse a foto. Era parte da graça.
Sábado continua a ser dia de encontro. Toma-se um café, joga-se ao vento um ou dois dedos de prosa. Já não há é aquela obrigação, vinda da sensação de que a perda dos momentos de convívio fosse prejudicial à saúde mental do ausente. E à paz de espírito, se acaso guindado ao posto pouco lisonjeiro de assunto do dia.
O que importa é a convivência. A ocupação de conversar. Robert Louis Stevenson, autor de muita coisa além da Ilha do Tesouro, alerta no seu A conversa e os conversadores (in Apologia do ócio e A conversa e os conversadores. 2.ª ed. Trad. Rogério Casanova. Lisboa: Antígona, 2018) para o fato de que “não existe ambição mais razoável que a de nos notabilizarmos na arte da boa conversa; sermos afáveis, bem-humorados, rápidos, lúcidos e generosos; possuirmos um facto ou pensamento adequado para ilustrar qualquer assunto”. Convívio, vê-se, é ao mesmo tempo lazer e exercício mental.  
    Se são outras as circunstâncias, o espírito é o mesmo. Tome-se um café, em qualquer lugar que seja, fale-se sobre tudo um pouco e Literatura também, estará honrado o compromisso, estarão lembrados os velhos tempos. Afinal, é sábado, dia de café com prosa, a fazer hora pro almoço.  

12 de julho de 2019

Breves notas quase-literárias (XVIII): Camilo, Dostoiévski e uma crônica premiada


1862. Este foi um ano interessante na História da Literatura, porquanto vinham a público duas obras que, a par de não se poder ter na conta de obras-primas de seus respectivos autores, no entanto inauguraram espécie de “filão literário” (embora, reconheçamos, de não muito fácil possibilidade de exploração): o das memórias de prisioneiros, que posteriormente floresceria na União Soviética na chamada “Literatura do Gulag”, alusão ao Arquipélago Gulag, de Aleksandr Soljenítsen (onde se inclua também o Varlam Chalámov dos Contos de Kolimá), e dando frutos até no Brasil, com as Memórias do Cárcere, de Graciliano Ramos. 
Remontemos, então, a 1862, quando vieram a público Memórias do Cárcere, de Camilo Castelo Branco, e Recordações da Casa dos Mortos, de Fiódor Dostoiévski; ambos abordam o período pelo qual seus autores estiveram encarcerados – e, interessante notar, mesmo irrelevante aqui -, nos dois extremos da Europa. Desdita que, no entanto, se abateu sobre ambos por circunstâncias totalmente distintas: Dostoiévski, por motivo de militância política; Camilo, respondendo a processo por acusação de adultério.
Agora bem, se na verdade Dostoiévski faz ali uma espécie de reportagem daqueles dias e lugares lúgubres, no entanto o faz sob estrutura romanesca. De fato, Recordações da Casa dos Mortos é sobre as agruras de um personagem fictício, Alexandr Petróvitch Goriántchikov, condenado pelo assassinato da esposa, um crime passional, retratado durante o período em que está a expiar sua culpa. Já em Memórias do Cárcere Camilo faz um histórico dos antecedentes da sua prisão e da sua experiência de pouco mais de um ano de cárcere, período em que esteve recolhido por ordem da justiça na cadeia do Tribunal da Relação do Porto.   
Na última ida a Lisboa adquiri uma plaquete intitulada O processo de Camilo, texto de palestra realizada no Tribunal da Relação do Porto em 2017 pelo juiz-desembargador daquela Corte, Carlos Querido. No trabalho o autor disseca o processo criminal pelo qual foram pronunciados Camilo e D.ª Ana Plácido, em querela movida pelo marido da senhora, e que os levou, a ambos, à prisão, enquanto aguardavam decisão final. Registre-se que no processo atuou o juiz José Maria de Almeida Teixeira de Queirós (pai de Eça de Queirós), que inclusive a alturas jurou suspeição por foro íntimo, mas permanecendo em funções por determinação do Tribunal.
Sobre esse trabalho de Carlos Querido – afinal, sobre o processo de Camilo -, fiz menção na crônica A ficção em cada processo, escrita para o I Prêmio Nacional de Literatura para Magistrados, promovido pela Associação dos Magistrados Brasileiros neste ano de 2019, e que venceu o concurso na sua categoria. Prêmio que vem 40 anos depois de vencer meu primeiro concurso literário, em 1979: um concurso estudantil de crônicas na Semana Cultural do Colégio Marista, de Colatina, em que concorri com o texto Sobre as dificuldades de se escrever uma crônica.
Transcrevo-o aqui, no estilo dos meus quatorze anos:
“Ao me inscrever para a Semana Cultural no item de Crônicas e Poesias pensei estar escolhendo o item mais fácil e que me daria menos trabalho. Foi um engano. Desse momento até a hora de inscrever a ‘obra’, as dificuldades se sucederiam.
Logo de cara, deixei de lado as poesias. Sobrou a Crônica, e pela primeira vez pensei que teria de fazer uma crônica.
A primeira coisa a fazer era saber o que era uma crônica. Já tinha visto crônicas em jornais, mas nunca havia parado para ler nenhuma. Recorri então ao dicionário, onde fiquei sabendo que crônica era ‘noticiário dos jornais, comentários literários ou científicos que constituem periodicamente uma seção de jornal.’ Mas de que me adiantava saber aquilo (eu já havia decorado a definição) se eu teria de elaborar uma crônica? Eu precisava ler uma crônica e saber o que era na prática. Consegui algumas e estudei, e percebi que eram narrativas onde não havia conflito.
Resolvi começar e a primeira dificuldade surgiu através do título. Qual título eu iria dar? Resolvi este problema deixando o título para ser dado depois de escrita a matéria. E o assunto? Bem, teria de ser algo sensacional, algo como ‘A Crise do Futebol Brasileiro’, ou ‘A Energia Nuclear no Brasil’, e coisas assim. Eu não sabia que esses assuntos ficariam melhor numa redação, ou mesmo num Estudo, ou num Tratado...
Vim a saber disso noutro dia, após encontrar um livro que ‘salvou a pátria’: Ai de Ti, Copacabana, de Rubem Braga. Após a leitura de umas quatro ou cinco crônicas, pude observar que o Autor escolhia os temas mais corriqueiros para retratar em seus trabalhos. Na maioria das vezes eram casos que ele mesmo tinha vivido.
Eu também iria escrever sobre algo que me tivesse acontecido, e pensei então em escrever sobre o último feriado, que eu descansei muito etc., mas isso seria mais uma redação de primário que uma crônica.
Foi então que eu tive a grande ideia: faria uma crônica sobre as dificuldades que eu tinha para escrever uma crônica!
A partir daí foi mais fácil, e as dificuldades terminaram quando resolvi que escreveria exatamente sobre elas.
Eis aí a crônica sobe as dificuldades de se escrever uma crônica. A terceira. E se vierem me dizer que isto também não é uma crônica, aí eu desisto!...”

            E pus-me a pensar cá comigo: o ato de escrever é tão surpreendente que um texto que inicia referindo ano importante na História da Literatura pode ao final agasalhar efeméride pessoal que na certa não interessaria a mais ninguém que não o próprio escritor.
            É que, como constato num dos poemas do Périplo a Norte de tudo, o escritor (lá, o poeta),
                        “Arauto e errante”, é,
sem dúvida, o
                        “Senhor desta página”.

16 de abril de 2019

Breves notas quase literárias (XVII) - Notre Dame de Paris



Embora mais antiga que isso, Paris, a Civitas Parisiorum do imperador Juliano, entrou na História por meio de um incêndio. Ainda Lutécia, nome romanizado do termo celta designando o povoado espalhado pelo emaranhado de ilhas pantanosas do Sena, uma batalha perdida para as forças do general romano Labienus obrigou o chefe Camulogeno a pôr fogo em tudo. Tática de terra arrasada. Foi a urbe daí renascida, da reconstrução levada a efeito em conjunto por romanos e gauleses parísios, que alavancaria para a História uma das mais prodigiosas cidades da civilização ocidental.

Paris é, talvez a cidade mais literária de todas. O encanto que exerce sobre tão diferente espécie de gente, de soldados a comerciantes, de poetas a financistas, de escritores a ladrões e artistas e santos e toda sorte de desajustados ao longo de tantos séculos de história gerou incontáveis páginas escritas e ainda mais incontáveis imagens, feitas por pintores e fotógrafos. Em que, hoje em dia, incluem-se (com mil perdões aos puristas da fotografia) qualquer pessoa que porta um aparelho celular.

Paris é uma cidade fotogênica como poucas. O que é facilitado pela luminosidade natural tanto quanto pela geografia, entrecortada de montes que se alteiam aqui e ali, margeando o Sena. Este sim, a razão de ser de tudo, acompanhando a cidade ao longo de toda sua extensão, como que a “hidratá-la”. Paris é fria e é úmida, e o Sena tem sim participação nesse determinismo climático. Mas é o próprio curso do Sena o responsável por tornar Paris uma cidade fácil de “entender” para quem, como eu, gosta de bater os olhos sobre o mapa e se dar conta da lógica dos centros urbanos antes de sair a percorrê-los.

O Sena é um dos cartões postais de uma cidade que os coleciona em abundância. Não é, entretanto, o mais conhecido, posto que cabe à imbatível Torre Eiffel. Seguida de perto pelos esplêndidos museus (o Louvre é uma celebridade) e os esplêndidos monumentos religiosos, Sacre-Couer e Notre Dame. A propósito desta última, aliás, a razão destas reflexões.

Fomos, o mundo todo, surpreendidos neste 15 de abril pela notícia do incêndio que por horas consumiu a parte superior da Catedral de Notre Dame. O monumento mais visitado da Europa. O ponto de referência que eu, na minha estreia na cidade, só detive a marcha pela margem fria do Sena ao dar com a sua visão, vindo a pé do 13º arrondissement. A praça coalhada de gente, as filas para entrar, a visita superficial que se faz como turista. Mas também o ofício da missa, o som do órgão. O deixar-se ficar pelos recantos situados além dos roteiros turísticos, as conversas pescadas entre nativos, no que dava para perceber apesar da minha pouca vivência da língua francesa. Notre Dame foi durante minha estada o ponto de referência, espécie de pouso cuja simples visão descansava das explorações rigorosas a que nos submete essa atividade insana que é o fazer turismo.

As imagens, tanto quanto as que foram tiradas da agonia do nosso Museu Nacional, são impressionantes. É ver arder a civilização, visão com que infelizmente vimos nos acostumando diariamente. Só que de maneira não simbólica. E aqui, e por isto mesmo, faço um retorno ao ponto em que suspeitei que Paris possa ser a cidade mais literária de todas. É que a própria Catedral de Notre Dame deve a esta circunstância uma parte da sua glória.

Nos anos turbulentos que se seguiram à Revolução Francesa, o monumento sofreu depredações que levaram à interdição. A coroação de Napoleão Bonaparte, em 1804, aconteceu na esteira da reabertura do templo ao culto, em 1802. Ademais disto, no início do século XIX a intelectualidade se mostrava interessada no estilo gótico e tinha em Notre Dame uma referência. No entanto, fora dos salões literários e gabinetes de estudo, a realidade era outra: a situação do monumento nos anos iniciais do século XIX era tão precária que as autoridades pensavam em demolição.

Era o estado de coisas em 1831, ano da publicação de Notre Dame de Paris, de Victor Hugo. A saída à luz do romance chamou a atenção do público. E mais, fez com que os escritores cerrassem fileiras em favor do monumento e se expressassem nesse sentido. Gerard de Nerval, por exemplo, acreditava e repetia que as pessoas não vinham de todas as partes do mundo para ver aquelas ruínas austeras em que estava transformado o templo. O próprio Victor Hugo sentenciava que a destruição de um edifício histórico não deveria ser permitida. Sem embargo, essa mobilização de escritores e intelectuais acabou por salvar o monumento. Tanto que foi Prosper Merimée, autor de Carmen, o Inspetor Geral da Comissão de Monumentos Históricos que em 1843 criou um concurso para restauração geral da Catedral. Providência que poria fim ao quadro de penúria e possibilitaria o ressurgimento do monumento em seu esplendor.

Então, velha de quase 900 anos - aumentada, destruída, conservada ao sabor dos fatos históricos por tantos séculos - a feição que até hoje conhecíamos era a que lhe deram as reformas do século XIX. Cujos mentores, aliás, pretenderam conservar ao máximo as características originais. No momento em que escrevo, extinto o fogo, começa-se a apurar a extensão dos danos.

Volto o pensamento à luminosa e fria Paris da minha estadia para recordar que, da margem do Sena, saquei uma foto (dentre inúmeras) da parte superior do templo. Na imagem, o reflexo do sol matinal desenhava figura que lembrava a de uma sombra humana. No retorno, contei à minha filha que consegui fotografar o Quasímodo acabando de despertar e que olhava as pessoas lá embaixo. Estranhamente, a foto não ficou registrada na memória do celular. Para ela, que me cobrou a imagem e chegou a duvidar da história, debitei o fato na conta dos mistérios da Catedral de Notre Dame.

Que ela e outras crianças mundo afora nunca acreditem que o Corcunda pereceu no incêndio. Temos dissabores demais para termos de explicar às crianças mais um revés causado pela nossa incompetência em lidar com a herança cultural. Antes, que o efeito simbólico da catástrofe possa ser amenizado pelo esforço de reconstrução, que certamente há de ser bem-sucedido.

10 de abril de 2019

Breves notas quase-literárias (XVI): Em Itaúnas


Não sei há quantos anos, mas bem no meio do verão, por volta de 20 de janeiro, quem precisar é capaz de me encontrar em Itaúnas. Nessa época a pequena vila à beira-rio plantada fica apinhada de gente, brincantes e simpatizantes. É gente de alguma maneira ligada a tradições culturais mantidas vivas naqueles rincões do Norte espírito-santense, e que hoje em dia conferem interesse ao lugar e prestígio aos protagonistas.

Itaúnas é distrito de Conceição da Barra, de cuja sede dista aproximadamente 30 quilômetros. É destino turístico importante. Por conta dos encontros de bandas e dos festivais de forró que acontecem pelos meados do ano, atraindo visitantes de todo o Brasil, pouca gente desconhece a história trágica do povoado vítima da maldição ecológica que, à conta do desmatamento, acabou soterrado pelas areias sopradas da praia por ventania incessante. Se a visita às dunas, que mantêm ruínas da vila original debaixo de quantidade fantástica de areia, é atrativo turístico imperdível, fazê-lo à hora do pôr do sol é atividade obrigatória, num breve momento de reflexão, para uns, e de pausa nas atividades, para outros. Faz parte da mística do lugar.

Subindo e descendo as dunas é que se vai à praia. Escolha um dos vários quiosques, que se põem plantados num plano mais elevado em relação à maré, e de lá de cima, comandando, por exemplo, uma porção de camarões a preço (ainda) acessível, simplesmente passe uma tarde em contemplação à paisagem marinha, esplêndida, já meio nordestina. Ou desça para banhar-se, que o calor, o ano todo, pede e justifica. São águas límpidas e a temperatura é amigável.

Já de minha parte, nessa época do ano passeios só nos intervalos das apresentações. Em janeiro a movimentação dos grupos folclóricos é intensa. Homenagem a São Sebastião, cuja festa se faz no dia 20, e a São Benedito, que nas comunidades Espírito Santo afora se festeja independente de pretexto. Ticumbi, alardo, reis-de-bois, jongos, pastorinhas, o lugar é interessante exemplo de diversidade cultural.

Não se ignora que as apresentações, a manutenção das atividades, depende de apoio para a logística - indumentária, alimentação e transporte incluídos. Não se ignora que há relações de interesse e de poder envolvidas no próprio fato da manutenção dos grupos. Estudos e análises acadêmicas as perpassam e dissecam sob todos os vieses possíveis há mais de trinta anos. Mas com certeza não é com que se preocupa a maioria das pessoas, turistas e curiosos, que por volta de 20 de janeiro, estando pela vila, param para assistir às apresentações.    

Quase tudo ali eram terras do Barão de Timbuí; a região foi percorrida pelo Príncipe Wied-Neuwied, em demanda do norte, em 1816/1817, há exatos duzentos anos. Uma visita à sede do Projeto Tamar, no final do casario, margeando a ponte sobre o rio de águas escuras, esclarece bastante bem antecedentes etnográficos e históricos do lugar: notas objetivas sobre a população indígena, sobre a fauna, sobre a colonização e a economia local, que conheceu prosperidade graças, principalmente, à produção de farinha de mandioca.

Logo adiante a entrada do Parque Florestal, quilômetros de (ainda) alguma mata atlântica, permeada em quase toda a extensão pelo eucaliptal sem fim, onipresente rio Reis Magos para cima, Espírito Santo afora. Um dos caminhos que cortam o parque dá acesso quilômetros parque adentro à praia de Riacho Doce, onde se convencionou estar situada a divisa com a Bahia, em que pese ao fato de os limites não restarem demarcados com certeza.

 Pois foi numa das idas a Itaúnas que comecei a imaginar a história do viajante ;que chega ao lugar atrás de material para um trabalho acadêmico e acaba atraído pela beleza de uma moradora, de que ninguém dá muita informação. Como não poderia deixar de ser, se está a lidar com personagem singular, a ponto de merecer ter seus passos narrados e registrados por escrito. Se o curso dos acontecimentos será alterado por sua ação, por sua simples presença, ou se sua passagem por ali não modificará os ânimos das pessoas ainda não é altura de deixar esclarecido.
Da última vez em que lá estive, visitando os lugares que a personagem visitou, revendo mentalmente as cenas passadas às margens do rio, pude adquirir linda morena feita em cerâmica, cujo ar plácido, ao mesmo tempo pensativo e distante de quem a olha, reflete com precisão os traços de caráter que lhe adivinhei em sonhos, quando ainda sequer conhecia a tal personagem, e que deverá influenciar o protagonista a ponto de - quem sabe -, roubar para si o protagonismo.

Quanto ao lugar da narração, a ele se reconhece grande importância na criação ficcional, na construção (ou descrição) dos fatos que se entremeiam resultando na ação que se pretende ser digna de registro. A trama se passa num tempo e num lugar - ainda que um ou outro, ou ambos, não restem definidos com base em geografias e cronologias.

Se é verdade que as personagens dialogam conosco enquanto lhes fixamos os traços, biográficos e de caráter, se é verdade que o escritor de romance é um colecionador de idiossincrasias, catálogo de caracteres que darão interesse ao descortinar das vidas que desnuda, não é menos verdade que os lugares têm, eles também, suas idiossincrasias: uma cidade, uma vila, um povoado, nunca os percebemos, eu e você, da mesma maneira. Estas discordâncias de percepção tendem a se acentuar no caso de eu e você estarmos de lados opostos no ato de criação ficcional – vale dizer, como autor e leitor.

Interessante como tudo isso me veio à mente recordando a vila de Itaúnas. Itaúnas, terra multifacetada de interesse, de folclore e de músicos, de escritores e fotógrafos, de gente honesta e trabalhadora, de problemas que são normais em comunidades, e de outros que infelizmente se tornam cada vez mais comuns nesses estranhos dias que correm.

Não sei ainda que poderá sugerir a bela morena de cima da minha mesa de trabalho, de onde ficará me olhando até que alguma coisa indique ter chegado o final da história. Sorte minha ter conseguido personificar o lugar numa personagem, que para mim, enquanto digito, se insinua como “o rosto de Itaúnas”. Que sua história possa agradar.  Por ora, parêntese que aqui vou fechando, há simplesmente que narrar.


(publicado na Antologia Amaletras vol II)

31 de março de 2019

Breves notas quase-literárias (XV): Moçambique/Espírito Santo - memória das cidades nossas



Venho lendo as manifestações de Mia Couto a propósito da tragédia que na forma de furacão se abateu sobre Moçambique neste 2019. Da cobertura dos fatos fico sabendo que o autor faz atualmente desfiar pelo teclado do computador as ideias que desenvolve para um novo romance. A história, segundo nos informa, é passada na cidade da Beira, a segunda maior do país, onde Mia nasceu e viveu até aos 17 anos. Nas suas próprias palavras: “Neste momento, escrevo um romance em que a cidade era um personagem. É uma maneira disfarçada de visitar tempos que foram meus”. Subitamente, no meio do processo de escrita, viu-se atordoado pela crueza dos fatos. Fatos estes de repercussão mundial.
Inicialmente sem qualquer comunicação com amigos que vivem na cidade da Beira, a passagem dos dias veio agregando informações que lhe deram conta da imensidão da destruição: algo da ordem de 90% da cidade deixou de existir. No sobrevoo que fez à região após a tragédia, “minha [dele] primeira reação foi achar que minha infância foi perdida”. E prossegue: “foi como se meu próprio tempo deixasse de ter esta referência básica, este chão que é um lugar que me conta histórias, que me faz ser pessoa”.
Fatos concernentes à própria biografia, fatos que se desenovelam pelo entorno da própria existência. O recurso ao material, ou a quase necessidade de desenvolvê-lo como matéria prima ficcional, é recorrente. Exemplos inúmeros não faltam na Literatura nacional. Por aqui, lembremos Pedro J. Nunes de Menino e de Tarde dos porcos. De certa maneira, é desta mesma natureza o material que desenvolvi no Memória Repartida. No meu caso, expandido no tempo, porque o romance é permeado de uma visão de “longa história” da região. Também por este motivo alcanço o significado das palavras amargas do autor moçambicano. Que acrescentou, na mesma entrevista ao G1: “É uma visão apocalíptica, todas as casas sem teto, as ruas cheias de água”.
A primeira vez que ouvi falar em Mia Couto desenvolvia estudos em Portugal, onde vivia. Por alguém que não recordo me foi sugerido como referência o seu livro A varanda do frangipani, em que a “alma penada” de um operário (um “xipoco”), morto às vésperas da independência de Moçambique reencarna no inspetor de polícia que vai investigar a morte. Tal referência me veio a propósito da pesquisa sobre o infanticídio ritual na Guiné Bissau, assunto explorado na dissertação de mestrado que apresentei à Universidade de Lisboa e citado por Mia naquela obra. Foi a primeira vez que o moçambicano me induziu a refletir seriamente sobre alguma coisa. Esta é a segunda.
Há 40 anos as ruas da cidade onde pela primeira vez me dei conta do mundo viram-se “cheias de água”, como as da Beira natal de Mia. Era 1979; Colatina viu-se inundada por homérica cheia do Rio Doce, que a corta ao meio. A elevação desmedida do leito represou afluentes, que não tendo onde tributar as águas, esparramaram-nas margens afora. Foi o que aconteceu com o rio Santa Maria, afluente da margem direita, que deságua no Rio Doce na altura do bairro Esplanada. Onde eu vivia na época.
Findava nosso período de férias escolares em Guarapari, onde todos os anos a família veraneava durante janeiro e fevereiro. Chuvas ininterruptas. Como em Minas Gerais, o mau tempo não dava trégua sobre o Espírito Santo. As notícias das cidades situadas no vale do Rio Doce inquietavam, mas eram distantes. Nossas funcionárias tinham seguido para Colatina, a fim de limpar a casa e organizar as coisas para início do ano. Aguardávamos. Lembro-me de recebermos no dia seguinte ligação telefônica de uma delas. Reportava, preocupada, a subida das águas do rio. Estava à espera de instruções. Minha mãe, que não tinha como prever a amplitude da tragédia prestes a se abater sobre a cidade, determinou: “coloquem panos por debaixo da porta para impedir a entrada da água”.
Inapropriado, frente ao que se sucederia nas próximas horas. Uma sangria de emergência da represa de Mascarenhas, a montante da cidade, piorou a situação. O leito do rio elevou-se muitos metros acima do nível normal, inundando tudo. Nas imagens impressionantes que circulam pela internet não mais consegui identificar a figura do meu primo Vicente de Paula, já falecido: transitando pelo centro da cidade, as pernas metidas dentro d’água quase até o joelho, protegia-se do mau tempo com um guarda-chuva aberto. Imagem eternizada na minha mente como símbolo daquele desespero todo.
Estive lá com meu pai. Como não voltaríamos tão cedo de Guarapari, fomos a Colatina buscar roupas e outros objetos. Meu pai queria ver com os próprios olhos a extensão dos danos. Nossa rua, a Santa Maria, sob metros de água. Não dava para entrar em casa. A não ser nadando, sugeri. Meu pai, chocado, aquiesceu. Lancei-me às águas, águas do rio Santa Maria, que eu nem em sonho cuidara encontrar por ali, tão longe do leito. Da casa de dois andares apenas no segundo se andava; no primeiro nadava-se.  Entrei, subi o lance de escadas e peguei o que tinha de pegar. A lembrança mais viva que guardo é a de um rato morto boiando em frente ao portão, por sobre que nadei para fora da casa semidestruída.
A cidade era a imagem da desolação. Tropas policiais, caminhões de campanha, caminhões de água, gente trançando às tontas pelo lamaçal que cobria as ruas tão minhas conhecidas. As ruas que eu percorria de um lado para outro nos afazeres rotineiros da minha vida aos 14 anos de idade, sem nunca ter me dado conta de que ali jazia o mundo em que eu vivia. Eu e muitos outros, colegas, amigos, amigas. A minha cidade.
“Fiquei algumas horas lá depois do desastre e entendi algo que não percebia até então. A cidade é feita pelas pessoas”. É de Mia Couto. Poderia ser meu, descontada a diferença de talento que nos separa. Um pouco por conta disso é que até hoje cultivo os amigos de então. O que me ajudou a superar na cabeça a tragédia ambiental que muitos anos depois se abateu sobre o Rio Doce, desta vez fruto da imprevidência humana. E também a inclemência dos anos de seca, quando a falta de chuva quase extinguiu o curso d’água, pondo a nu barrancas traiçoeiras e meandros arenosos cujos mistérios eu-menino tanto respeitava.
Mas a cidade sobreviveu, como o Rio Doce sobrevive. Talvez não incólumes, mas reconstruídos ambos, a cada revés, um pouco como resultado da operosidade das pessoas. Ainda que, como o moçambicano, eu a certa atura tenha me dado conta de que “enquanto eu ia à procura destas memórias para este romance, daquilo que me inspirou a ser pessoa, eu percebia que esta memória era toda inventada. A cidade tinha se inventado a si própria”. No exercício da escrita o que fazemos é tangenciá-las, essas primeiras memórias, que um pouco nos definem como pessoa.