7 de abril de 2022

A Pós-reunião de ontem no Instituto Histórico

O congraçamento entre confrades, consócios – amigos, enfim – é parte importante da convivência em associações culturais. Exemplos de encontros à mesa, de jantares ou de bar, não faltam para prover a curiosidade de quem se dispuser a escavar antiguidades literárias (ou associativas, que seja). Os jantares do PEN Clube do Brasil são exemplos de gala, pode-se dizer, nesse segmento. Mas contam-se inúmeros outros, de que ficaram registro, aqui e algures.

 

O Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo tem páginas memoráveis (digamos assim) nesses domínios do congraçamento de confrades feitos comensais. E sem dúvida o período áureo dessa espécie de iniciativa é o da presença (e muito mais da presidência) de Miguel Depes Tallon. Miguel, de quem tive o prazer de comentar trechos selecionados da obra para um volume da coleção Roberto Almada, de 2017, era conversador nato, e juntava a essa característica as de bebedor rigoroso e gourmet criterioso. E gostava de companhia. Ao final das atividades presididas por ele no Instituto Histórico não eram raros os convites para que o acompanhassem numa pizza ali mesmo na Avenida República, em estabelecimento amigo. Ou para excursões cidade adentro, até o seu pouso seguro do Bar do David, em Jucutuquara. Ali Miguel congregava consócios e confrades em torno da mesa de comes e bebes, de onde muita coisa memorável saía, atestam-no (até em causa própria) os frequentadores remanescentes.

 

Miguel se foi em 1999, mas o seu espírito agregador continuou na reunião semanal que muito teve do concurso dele e do pessoal do IHGES: o Sabalogos, que, se não com esse nome, até ao início da pandemia de 2020 manteve unidos apreciadores sabadais do papo e do copo – mas aí, e melhor dizendo, da xícara de café. E as reuniões gastronômicas vindas daquela época (e inclusive com direito a ata), os memoráveis almoços de sábado, se mantiveram no tempo, mesmo rareados pela falta de alguns frequentadores mais assíduos e mais entusiasmados dentre eles, que assim é a vida.

 

De tudo isso conclui-se fazer parte de uma certa tradição no IHGES o esticar o assunto, a convivência,

enfim, para depois das reuniões, prosseguindo até algum canto da cidade naturalmente acolhedor no quesito estabelecimentos etílico-gastronômicos. A Jucutuquara da predileção do Miguel, terra do Barão de Monjardim e da escola campeã do carnaval, é um deles - reúne, um defronte ao outro, dois pontos propícios ao alargar da conversa entre confrades cansados da labuta histórico-geográfica. Por ocasião da terceira reunião do IHGES no ano de 2022, no dia em que caiu a exigência das máscaras, fomos homenagear o Miguel no bar em frente ao “seu”, o Bar do Ceará, dos pastéis famosos. Não era data especial que se comemorasse: fazia não redondos setenta e três anos e alguma coisa de seu nascimento e vinte e dois anos e alguma coisa de seu falecimento. A homenagem se fazia mais ao aludido exemplo de conversador e comensal que era o Miguel, qualidades imprescindíveis nessas ocasiões. E foi devidamente lembrado e homenageado pelos presentes, a maioria seus companheiros de reunião no Instituto Histórico daqueles dias. Brindamos a ele, nem todos bebemos à sua memória, que os tempos são outros e a Lei Seca está em vigor. Mas quem sabe não estivesse ele por ali à espreita, com o sorriso bonachão que esboçava no prazer de ver-se cercado de amigos, bebessem ou não com ele. 

 

Olhe por nós, presidente Miguel, pela nossa casa que retoma com força as atividades. E agora com o calor da presença dos associados, a que brindamos ontem e como deve ser sempre.