26 de maio de 2018

Breves notas quase-literárias XIV: Rubem Braga, Newton Braga, Cachoeiro de Itapemirim


Cachoeiro de Itapemirim. Vem-se e aqui chegando vai-se até a Beira-rio. O rio é o referencial da cidade. É certo que, na maior parte do ano, percebem-se mais os cachoeiros formados pelas pedras afloradas do que se percebe o próprio Itapemirim – o que justifica permanentemente o nome da cidade. Aliás, hoje a única “cidade do cachoeiro” do Espírito Santo, já que a vetusta Santa Leopoldina – antiga Cidade do Cachoeiro de Santa Leopoldina – ninguém mais a conhece por esse nome.

Deixemos de lado o calor – as formações rochosas do entorno só fazem amplificá-lo. Esqueçamos essa característica quase que intrínseca atribuída pelo forasteiro à cidade. Há mais, muito mais, para se ver e sentir aqui.

Levando mais longe o paralelo entre as duas cidades capixabas, Cachoeiro herdou de Santa Leopoldina não só o primeiro nome, mas também a pujança econômica e a inquietação cultural. Quase como se o fenecer de uma testemunhasse o desabrochar da outra, naquela lógica própria dos ciclos históricos que não se pode explicar. Ou se explica sim, mas à custa de hipóteses sociológicas e modelos econômicos que não vêm ao caso.

Mas então estava eu à beira-rio, a olhar a passagem do Itapemirim, e me lembrei de um ilustre filho de Cachoeiro, Miguel Depes Tallon. Convivi pouco com Miguel, que presidia o Instituto Histórico e Geográfico quando me empossei como associado efetivo: é dele a assinatura que consta no meu diploma. Pois por encomenda da Academia Espírito-santense de Letras tive a oportunidade de relembrá-lo, no texto que escrevi para a coleção Roberto Almada, da Prefeitura da capital. Relendo a obra de Miguel e investigando fatos sobre ele, me lembrei de ter ouvido da sua boca que, em conversa com amigos, Rubem Braga afirmou que Cachoeiro de Itapemirim lembrava Florença. Tentei então olhar com os mesmos olhos: se tivermos em mente rios e pontes, se lembramos o Arno e a Ponte Vecchia, olhando o Itapemirim e a ponte de ferro, há sim, cronista, certa sensação de familiaridade.

Rubem era bairrista como só quem ama seu pedaço de mundo sabe ser. Circunstâncias outras o levaram para longe, no que teve de ganhar a vida. Mas a sua cidade nunca saiu dele, e esse é um fato sabido e consabido por todos. Os cachoeirenses entendem bem por quê.

Aproveitei a ida a Cachoeiro, em visita à sétima Bienal (feira literária que leva seu nome), para conhecer a Casa dos Braga, na rua 25 de março (data de emancipação política do município). Construída em 1910 e comprada em 1913 pelo patriarca da família, na casa cresceram os irmãos Newton e Rubem Braga. Restaurado em 2017, o imóvel encontra-se aberto à visitação pública. Tive a sorte de conhecer-lhe os recantos e saber suas histórias pelas escritoras Claudia Sabadini e Maria Elvira Tavares Costa, ambas apaixonadas pelas circunstâncias da primeira fase da vida dos irmãos escritores.

Entramos e elas mostraram-nos o pé de fruta-pão, que se vê da janela do quarto do casal, e o pé de saboneteira, nos fundos, um dos tesouros da molecada. Móveis, objetos, livros da biblioteca particular de Rubem, muitas fotos e duas máquinas de escrever que foram do escritor. Mostraram-nos um pouco de como vivia a família naquele início de século, e ficamos (ao menos eu me peguei) tentando perceber como um tal ambiente pode ter influenciado os escritos de ambos.

Newton, formado em Direito em Minas Gerais, após a morte do pai retornou a Cachoeiro e recomendou Rubem, estudante, para seu lugar nos Diários Associados. Ambos “veteranos” colunistas do Correio do Sul, jornal cachoeirense dos irmãos mais velhos. Newton viveu em Cachoeiro até mudar-se com esposa e filhos para o Rio de Janeiro. Rubem não mais voltou, a não ser em visita. Newton é o poeta de Cachoeiro, com direito a busto em praça pública. Rubem, o poeta da crônica, o lírico da prosa, com direito a renome nacional.

Visitar Cachoeiro embalado nos ares das crônicas de Rubem Braga é visualizar um tempo que nada tem de cronológico; é, antes, presenciar o reencontro do homem com seus dias de menino, tudo passado naquele recanto da imaginação condicionado por impressões vividas e por anseios entressonhados.

A cidade de Rubem não é a mesma de Newton: ambas, antes, se complementam. Como deve ser. O que sei é que essa circunstância, a de embalar a infância de dois escritores de um tal quilate, haveria de ser um patrimônio inestimável para qualquer cidade. Para Cachoeiro de Itapemirim, tão investida de um bairrismo sadio, é patrimônio que a cidade cultiva com zelo, correspondendo em amor e devotamento o amor que ambos lhe devotaram.