8 de abril de 2018

Breves notas quase-literárias (XIII): Botafogo F. R., questão de estilo


De vez em quando me pego a pensar que quando me aposentar vou pesquisar, vou escrever, sobre um tal ou qual assunto. No entanto a maior parte desses planos acaba se esvaindo entre pensamentos e preocupações do dia-a-dia, sem que fiquem retidos na memória. Um dos poucos temas assim cogitados, e até gestado por algum tempo sem acabar como os outros, foi o de escrever sobre a vida de Heleno de Freitas - ídolo, de perfil singular, do Botafogo de Futebol e Regatas.
Até que para minha decepção, a princípio, mas paulatino alívio, tomei conhecimento do Nunca houve um homem como Heleno (Rio de Janeiro: Ediouro, 2006), biografia assinada por Marcos Eduardo Neves, cujo título faz alusão ao apelido que o craque odiava e que foi sacado pelas torcidas rivais do filme Gilda (1946), com Rita Hayworth.
Modelo de craque nos gramados e de elegância fora deles, Heleno de Freitas, advogado, pinta de galã, viveu uma vida vertiginosa, mas de final trágico. Foi um dos maiores ídolos do Botafogo dos anos 40 e 50, autor de 204 gols em 233 partidas. Embora tenha ficado com fama de pé-frio, por não ter conquistado nenhum título no clube, é reconhecidamente um dos maiores craques do futebol brasileiro.
História como a de Heleno de Freitas, que na grandeza como na decadência se mostrou personagem singular, não poderia estar mais afinada com a do próprio Botafogo de Futebol e Regatas. O clube atual nasceu da fusão, em 8 de dezembro de 1942, do Clube de Regatas Botafogo com o Botafogo Football Clube, processo iniciado meses antes graças a trágico acontecimento: durante partida de basquetebol entre ambos, Armando Albano, atleta do Football Clube, sofreu um ataque fulminante em quadra, a que não resistiu. A partida foi interrompida, o Regatas desistiu da disputa e ofereceu a vitória ao Futebol Clube, o que deu início às tratativas entre as agremiações. Setenta e quatro anos depois, e com a mesma motivação, o Clube Atlético Nacional, de Medellin, ofereceu à Associação Chapecoense de Futebol o título sul-americano de 2016 após o trágico acidente aéreo que dizimou a equipe oponente, gesto aplaudido no mundo todo.
Voltando a Heleno de Freitas, dele se lembrou Ivan Borgo nas páginas do Recordações do Futebol de Vitória (2016). Tendo Heleno feito tão pouco naquela partida pelo Vasco da Gama (que defendia em 1949), o que chamou a atenção do nosso estiloso cronista para o craque famoso foi o estilo incontestável deste último, sacramentado no golaço de cabeça que calou o coro hostil da torcida.
Creio que o tricolor Ivan, mesmo sem se dar conta, entreviu aí, na figura do craque, um pouco da mística do próprio Botafogo de Futebol e Regatas (onde Heleno se formou e se consagrou), resumida numa palavra: estilo. Não fosse o Botafogo o reconhecido inventor do far play (graças a atitude de Garrincha contra o Fluminense num Torneio Rio x São Paulo), é, talvez, o clube de futebol no Brasil mais imbuído daquele espírito bretão de elegância esportiva, de disputa entre cavalheiros. O que, reconheça-se, nem sempre é o mais adequado quando o jogo vira negócio milionário, como acabou se tornando hoje em dia.

Não importa. No futebol, como na vida, urge não se desprezar o ter estilo, jamais. Não há dúvida de que, desse prisma, Heleno de Freitas personifique, para sempre, a ideia de um Botafogo campeão.