14 de setembro de 2010

Tardes no Instituto Histórico e Geográfico

Não me refiro às tardes atuais no IHGES, tão cheias, para mim, de afazeres e de preocupações com a realidade, com a vida da Casa. Tardes de quarta quinzenais, como pedem os novos tempos, e que eu mesmo decretei, depois de ouvir a respeito os associados e a diretoria.

Falo das velhas tardes de quarta-feira, as semanais. Quando eu saía apressado de Vila Velha, meia-tarde, para chegar a tempo ao IHGES. Chegar ainda para estacionar o carro, lá em cima, na ladeira do Convento de São Francisco, mesmo em frente à OAB, e descer correndo, a pé, a ladeira Caramuru, antiga Rua do Fogo, para dar tempo de estar com eles.

Era uma casa de amigos, sem dúvida. E que bons amigos havia então: João Bonino, Érico Machado, Sebastião Sobreira, José Higino Taneco, Armando Marques, Ivantir Borgo, Zoel Fonseca, Renato Pacheco. A convivência era amena, as palestras eram agradáveis. Falava-se de tudo um pouco, e como aprendíamos com a sabedoria, com a experiência acumulada, com os estudos e os debates entre os da mesa... E depois da reunião, o café, servido com o bolo de fubá da Bada. Um parêntese: bolo este que o Fernando Achiamé exigiu, na reunião passada, voltasse a ser servido no final dos trabalhos. Concordei. Aquele bolo de fubá da Bada é, de fato, um estímulo à frequência de todos às reuniões do IHGES, um prêmio merecido ao final das longas comunicações de praxe.

Nossa sede no ed. Domingos Martins situa-se onde esteve erigido o Clube dos Boêmios, na Avenida República, antiga Rua da Vala. Ali mesmo foi a primeira casa do IHGES, desde 1925, por doação do Estado do Espírito Santo. Aquele palacete suntuoso, inaugurado em 1914, na então região nobre da cidade, acabou demolido no final dos anos 60. Isto por deliberação da assembléia geral, para dar lugar ao atual prédio da sede, que leva o nome do nosso patrono. Um prédio que hoje tem aí por volta dos trinta anos, já apresenta os problemas todos que um prédio de apartamentos começa a apresentar com essa idade. Infiltrações, inclusive. A última delas, meses atrás, poucos dias antes da sessão solene de junho.

Mas as velhas tardes de reunião no Instituto Histórico, aquelas reuniões no grande e claro salão da nossa sede, ficaram na minha memória como uma coisa agradável, como algo que dá gosto lembrar. Ninguém sabe mas eu, talvez saudoso daqueles tempos, gosto de ir ao IHGES à noite e me sentar sozinho à mesa de reunião, lâmpadas apagadas, à luz apenas da que entra pelas vidraças, vinda dos postes na rua. E no silêncio da noite quase chego a ouvi-los de novo. Daí tenho idéias que me aparecem sopradas de algum lado, quase perceptíveis na forma de sons.

Não, não se trata de perturbação mental qualquer, esquizofrenias ou que tais. Antes, trata-se do esforço de tentar perceber de novo as falas, as idéias - deles todos, talvez – tantas, umas e outras, que parece terem estado por ali, soltas no ar todo esse tempo, pelo recinto da sala de reuniões. E assim, parece também, ainda voejam tartamudeantes pelo ambiente, tantas e tão originais eram as falas e as idéias da maioria deles naquela época. Ao menos para mim.

E agora, que temos a missão de continuar aquilo que eles ajudaram a construir, que eles trouxeram vindo dos recuados do tempo e vieram depositar nas nossas mãos, nas mãos que hoje manuseiam o acervo que eles preservaram, hoje sem dúvida nós devemos tentar estar à altura deles. Se não intelectualmente, ao menos mirando-nos nas reuniões que fazíamos naqueles dias, no tornar agradável o nosso convívio quinzenal das quartas-feiras. Como eles tornavam agradável, para mim, o convívio nas tardes de todas as quartas-feiras, com a sua simples presença ali.

Temos uma missão, sabemos todos nós lá. Não podemos desistir dela, abandoná-la a meio. No mínimo, devemos passar a quem vier depois de nós aquilo que nos foi passado. No mínimo, porque na verdade espera-se mais de nós. Mas isso são imposições que nos impõe o nosso grande amor àquela Casa. Noventa e quatro anos, quantos já não passaram por lá?

Não é a isso, ao menos aqui, que estou me referindo, não sei se é de se perceber. É que, apesar de todo esse senso de responsabilidade, da grave responsabilidade de carregar a confiança que sobre mim depositaram - confiança em que eu coordene, nesta quadra, os esforços de todos para a continuação da vida da nossa casa noventona- apesar disso eu consigo ainda sentir o sopro de leveza, de inteligência, de camaradagem, de espírito, vindo daquelas já velhas tardes no IHGES. E felizmente me sinto envolver disso tudo quando às vezes vejo-me fraquejar o ânimo, tantas são as dificuldades de se levar adiante uma tal empreitada.

E é mesmo assim, sempre que, à noite, buscando inspiração nos que vieram antes, adentro o recinto do velho salão e olho à direita, na direção da galeria de retratos. No escuro, sinto-me olhado por todos eles: Athayde, Arquimimo, Carlos Xavier, Eurípides, Nogueira da Gama, Nélson Abel, Cristiano Fraga, Alberto Stange, Ormando, Renato Pacheco, Miguel... e quero, então, fazer-me à altura de seus melhores anseios pela continuação da obra a que se devotaram no seu tempo. E ali, no salão deserto, eu abraço fraternalmente a todos. Pelo que nos legaram. E paro, e ouço a escuridão. E fervilham nos meus ouvidos as suas velhas vozes, como se me estivessem oferecendo palpites e opiniões, todos, de uma só vez.

E então é estranho, porque mesmo no escuro, é como se eu percebesse, insinuando-se pelas frinchas das vidraças embaçadas pelo frio lá fora, uns poucos, surpreendentes raios de luz solar na direção do salão. Vindos, quem sabe, daquelas tardes recuadas no tempo, as alegres tardes de reunião no Instituto, que eu hoje lembro como se fossem elas a manhã do meu sentimento já tão maduro pela Casa. Um sentimento que me foi transmitido, sem dúvida (porque são os mais velhos que ensinam aos mais jovens), pela luminosa radiação de entusiasmo que eu então percebia nos olhos dos meus queridos, velhos companheiros das tardes de quarta-feira no IHGES.