2 de novembro de 2023

"... Da praia de Boa Viagem"...

                                                                                    

 Daqui a uns dias teremos Alceu Valença novamente 
em Vitória. Nada demais, é claro, a capital capixaba já entrou, há muito, no roteiro nacional de shows e outros entretenimentos. Mas é que da notícia eu soube por um confrade com quem conversava ao celular, coincidentemente no dia em que recebia pelo correio a mais atual biografia de Alceu. O inventor da banda de pífanos elétrica, definiu o expert Luiz Gonzaga (o exuense, ele mesmo, o maioral dentre os que se ocupam da música por lá). Apreciar a sonoridade do bardo pernambucano é coisa comuníssima Brasil afora, e a muitos e muitos carnavais no Recife dei adeus só depois de encerrado o show de Alceu, religiosamente o derradeiro show antes do congraçamento geral no Marco Zero daquela fantástica urbe (alô, meu amigo Vinícius Muline!).   
 

Bom, mas como tudo na vida, há quem goste e quem não goste. Há até quem levante o colonial passado de engenho-patriarcal da família do cantor, que assim teria sido opressora etcétera e tal, que essas coisas estão na moda e dão ao “levantador” uma aura bacana, muito apetecida nos saraus de hoje em dia por aí afora. Simpatia, amigos, como se sabe, é quase amor, e amor é o que importa. Mas, e no entanto, as duas ocorrências juntas, - a vinda de Alceu a Vitória, a chegada da sua biografia -, me fizeram lembrar as tardes de verão que há anos passei, meio largado, nas areias de Boa Viagem, a praia mágica da capital dos pernambucanos. A praia da moça bonita de que Alceu se lembra na canção famosa, e de que por sorte eu, de minha parte, me lembro também. Não da mesma moça bonita, é claro; uma outra, que moça bonita é o que não falta em Boa Viagem. 

 

Pernambuco é meu estado-de-espírito desde há muito tempo. Mais precisamente desde que um amigo pernambucano, o Jerônimo, vulgo None (amizade dos tempos de faculdade no Rio de Janeiro herdada do meu tio Almir), me desafiou: “por que você não vai conhecer o Recife? Se for uma vez, garanto que vai querer voltar sempre”. Era no início do século em curso. Meio que duvidando eu ri mas fui, aproveitando uma visita que o citado faria a famíliares num mês de janeiro. E foi dito e feito. Chegados lá a sua prima, cujo marido trabalhava em Natal, nos “adotou”, dando-nos pouso e nos levando a nós e mais a sobrinha a pontos turísticos escolhidos a dedo, tudo contra apenas e tão-somente o financiamento da gasolina. Foi quando, a exemplo de Alceu, tive minha experiência com frequentadora da praia de Boa Viagem. Na verdade, uma visitante, como eu. E daí as tardes de janeiro passadas à beira do mar de águas verdes de Boa Viagem, em companhia da morena. E mais, ali na sobra, do morenense, que o meu amigo None era natural da cidade-satélite do Recife (inesquecível cidade de Moreno onde, premido pelas circunstâncias, tive de me virar uma noite para dançar um forró). Tardes passadas à beira-mar, vendo as pessoas a veranear e apreciando a paisagem até o sol se pôr. Dias e dias à base de cerveja e caldinho de feijão, que no Recife, servido num funcional copinho de plástico, vem com milho, torresmo, ervilha e ovo de codorna, e nos mantinha alimentados até o chopp da noite, no bar que ficava embaixo do nosso prédio e que frequento até hoje quando volto à cidade. Onde, nesses mesmos dias, o None receberia uma notícia profissional ruim, que depois de algum tempo determinaria o seu retorno do Rio de Janeiro à Moreno natal em que viria a falecer. 

 

Se os fatos aconteceram como contei já não vem ao caso. Tantos anos depois, e aproveitando que escrevo num 2 de novembro, registro aqui que estou devendo uma visita à “última morada” do amigo que me apresentou ao Recife e a Boa Viagem, e que naquela certeza que todo pernambucano tem em se tratando da sua terra, vaticinou o meu amor por ela. Terra que continuo a frequentar, até mesmo porque outros amigos pernambucanos me honraram com o título de membro do Arqueológico, o mais antigo Instituto Histórico estadual. Mas que  hoje frequento em outra companhia, vivendo outras histórias.

 

Voltando, então, à agenda cultural, Alceu Valença que nos venha abrir a temporada de verão por aqui, a me lembrar do mar tépido da sua luminosa terra, tão diferente das gélidas e impactantes águas do mar da Praia da Costa - que, aliás, sendo a minha praia cotidiana, rende (e renderá) muito assunto...         


17 de abril de 2023

De renovados encontros

 

Aproveitando que o confrade Pedro J. Nunes pôs no ar, no site do Instituto Histórico e Geográfico, mais uma leva de números da Revista do IHGES (são 106 anos de publicação compactados em setenta e nove números) reli, com muito gosto, crônica de Xerxes Gusmão Neto, originalmente publicada no jornal A Tribuna, sobre um ano de falecimento de Miguel Depes Tallon. Se não conheci pessoalmente o autor da crônica, o seu objeto cheguei, sim, a conhecer, ali pouco antes da minha entrada no IHGES, em 1997. A casa era então brilhantemente (que outro advérbio usar para falar da gestão de Miguel?) presidida por ele. Alguns dos nossos encontros narrei no volume Manhosa escrita: Miguel Depes Tallon - vida e obra, de 2017, publicado na Coleção Roberto Almada, da Prefeitura de Vitória e da Academia Espírito-santense de Letras. Enfim, o que importa é que, como diz a crônica do Xerxes, Miguel exalava um magnetismo nato por entre os que o rodeavam, e daí se punha a capitanear almoços, encontros e bebericagens. 

 

O chato é que esses tempos de almoços, encontros e bebericagens, assim como os da companhia do Miguel, há muito ficaram para trás. Aquele grupo de amigos, de brandas maneiras, elevada cultura e interesses comuns, desfez-se no tempo, entre ausências e partidas, como era de ser. Por exemplo, já não se fazem encontros literários aos sábados. Tentamos mantê-los, um grupo muito mais reduzido, despreocupados de qualquer regularidade, às terças ou quintas-feiras. Mas aí não basta ser literato ou interessado nesses assuntos para ir se chegando; exige-se convivência fraterna entre todos, o que hoje em dia pressupõe um mínimo de afinidade de ideias e um máximo de falta de radicalismo no defendê-las. Sobretudo não se tolera chatice, nas variantes todas catalogadas por Guilherme Figueiredo no seu Tratado Geral dos Chatos (consulte-se-o!). Portanto, trata-se, o de que falo, de um grupo modesto de amigos que às vezes se encontram no café, ou no pastel-com-caldo-de-cana, para comentar a vida. Nada muito pretensioso, mas amenidades fazem falta, e como. Trocam-se livros, presenteiam-se uns aos outros com produção própria de cada um, fala-se e ouve-se. Quem sabe algum deles, que todos se viram muito bem nisso de escrita, homenageie o que de nós vier a faltar primeiro, como homenageou o Xerxes ao Miguel naquela crônica. 

 

Mas tudo isso é relativo: cada um dá-se com quem quiser. De minha parte não acredito em obrigação, nem em afinidades artificialmente criadas pelo ingresso num ou noutro círculo - dar-se com quem quiser passa longe disso. Acredito muito mais em brandas maneiras, elevada cultura e interesses comuns, quaisquer que sejam. Chistes, anedotas e alguma maledicência incluídos, que ninguém de nós tem pretensões ambiciosas no além: no máximo, reencontrar Miguel e sua turma lá no céu, para continuarmos o papo de onde o deixamos. 


- É um verdadeiro "Sacro Colégio" -, diz um dos nossos a respeito.


- Com uma pauta agradável a cumprir, ajunta outro, - E  a vida inteira para resenharmos, acrescento eu. 

 

O que não é muito e nem pouco. Mas, convenhamos, nos é na medida, e sendo assim, é o que importa – esses renovados encontros, que não permitem que, entre nós, o assunto jamais se esgote.             


25 de fevereiro de 2023

Na velha Academia

Algumas vezes a cultura de massa acaba registrando, surpreendentemente indelével, ditos, aforismos, que desafiam a fugacidade do produto de consumo fácil, a sua tônica. “Nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia”, das palavras de Luiz Maurício Pragana dos Santos, o Lulu Santos, é como hoje traduzimos a sensação de inexorabilidade do processo de mudanças - dos tempos, das pessoas, das coisas. Em verdade adaptamo-nos, que não há outro jeito, mas também recordamos. E como recordações gratas nos ajudam na condução de todo esse processo que, na falta de expressão melhor, chamamos amadurecimento...

Juntei-me à Academia Espírito-santense de Letras em 2005. Na época estava lá, a meu juízo, uma amostra do que de melhor havia na cultura e na vida pública local. Pessoas de projeção não só no fazer literário, mas também, e principalmente, no afazer profissional de cada um. Que, com raras exceções, não se tratava do fazer literário, em sentido estrito. Quando da minha chegada entre eles eu valorizava era o profissional que, apesar dos afazeres que o absorviam, tirava tempo, punha verve e disposição para o produzir literário. De várias maneiras (e também aí, com raras exceções) os admirava, pois com eles aprendia. A meu critério, tinham o que me ensinar.

O fato é que o tempo passa e muitas pessoas, a dada altura da vida, se convencem de não ter mais o que aprender, o que constitui erro dos mais crassos. Mas também, e miseravelmente, se dão conta de não ter mais com quem aprender - o que é, como se diz, uma outra história. É triste. Mas nem sempre um tal estado de alma pode ser debitado a elas mesmas, a essas pessoas desencantadas: faltam é mestres de vida. E quanto à vida literária, a do literato, do cultor das letras, como os havia por aí há coisa de dezoito anos, mais ainda. O tempora, lamentaria o vate.

Para mim esse tempo, miseravelmente, chegou. Vamos nos dando conta aos poucos, até que o desencanto vira falta de paciência. Sobretudo porque a previsibilidade desanima, a superficialidade enfada. Sendo assim, entre pouquíssimas, raríssimas exceções, me restam as recordações. Gratas, no caso da Academia Espírito-santense de Letras da minha estreia. De fato, ter o prazer de me sentar entre um Aylton Bermudes, um Ivan Borgo, um Romulo Salles de Sá, um Gabriel Bittencourt, uma Ana Bernardes (creio que já não cheguei a vê-la por lá, mas esse “sentar-se” fica aí como metafórico), um José Hygino de Oliveira, um Sérgio Bizzotto, era, de fato, um aprendizado. De vida e da vida literária, do culto das letras como atividade essencial apesar de “não remunerada”, se é que me faço entender. De traços de natureza humana – e sobretudo aí é de opinião pessoal que se cuida – muito mais aprimorados. A sabedoria dos mais velhos, que acatávamos não só pelo argumento, venerável então, da idade cronológica.

Há por aí a figura do velho tolo. O que nada aprendeu com a vida. Deparei-me com uns tantos ao longo do tempo, sobretudo no dia a dia profissional. No caso, e sem exceção, como vítimas de ocorrências policiais que me calharam conhecer para decidir. Aos poucos fui deixando de me admirar como no início me admirava - “puxa, será que o de cujus nada aprendeu com a vida?” Por exemplo, não é prudente desacatar um homem armado, reações humanas muito pouco têm de racional. O que, dou-me conta a tempo, vai me levando para além das balizas da reflexão original. Ou, melhor dizendo, das recordações que desfiava, que na verdade aí acima os recordava.

Havia então muito mais o que ouvir, a que deitar atenção, a que aplaudir, em palavras e em obras que o mais das vezes eram de utilidade, não somente de fruição. Havia exemplos em que reparar, conversas em que intervir. Havia, sobretudo, quem acatar. Pela consideração, mais que pela amizade, e essa aos poucos foi-se fortalecendo ali dentro. Para minha alegria, eu que desde os tempos de banda Urublues me considero um homem de instituições.

Agora, e penitenciando-me, deitar atenção já não é tão fácil. Até mesmo porque - é fato – perdemos muito em matéria de foco, de concentração, de atenção, nesses dezoito anos. Mas também porque, é incontestável, o culto ao literário mudou e os exemplos de vida, dentro da concepção que de minha parte me fazia acatá-los, praticamente desapareceram. Os tempos são outros, e com eles tudo também o é. Felizmente, as amizades continuo a cultivá-las, sem exceção. Mas, convenhamos, modas e modismos podem soar ridículos, sobretudo ostentados por velhos tolos e por quem resista a aprender com a vida.

No fim da reflexão adaptamo-nos, mas recordamos. É que as recordações nos ajudam a superar o processo, a abstrair do todo, a relevar as contradições humanas. Nos permitem ir cuidar de outra coisa.

É amadurecer.

7 de setembro de 2022

A Independência do Brasil na Capitania do Espírito Santo

Em 1820 assumia o governo da Capitania do Espírito Santo o governador Baltasar de Souza Botelho de Vasconcelos, em substituição a Francisco Alberto Rubim. O governo de Vasconcelos foi bastante agitado, o que se deve a reflexos locais da Revolução do Porto eclodida naquele ano (24/08/1820). Para Gabriel Bittencourt, as consequências do movimento a nível local foram bastante prejudiciais às atividades administrativas.

Abro um parêntese para registrar que o nosso consócio nesta casa, Gabriel Augusto de Mello Bittencourt, elaborou há quarenta e cinco anos a monografia “Espírito Santo: alguns Aspectos da Independência – 1820/1824”, em aproximadamente 35 laudas impressas de texto, mais os anexos (em número de 10) e bibliografia. Esse texto, que inaugura uma fase mais moderna da historiografia sobre o Espírito Santo, foi dividido pelo Autor em três capítulos mais uma breve conclusão. Sobre essa monografia, até como homenagem ao confrade Gabriel Bittencourt, que este ano completa oitenta anos de vida, falarei muito brevemente.


O primeiro capítulo do texto trata-se de um breve estudo da conjuntura nacional e uma visão panorâmica da evolução econômica do Espírito Santo até a quadra de 1820. Serve-se o autor na sua maioria de dados coletados pelo naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire, que esteve no Espírito Santo por essa época. No segundo capítulo, onde descreve propriamente os fatos, Bittencourt toma como base autores consagrados, mas aprofundando questões com apoio nas fontes primárias – notadamente, ofícios de e para a governadoria da Província no período de que se ocupa, 1820 a 1824. Expõe a situação política local, põe em relevo a atuação de personagens de influência, pelos cargos que ocupavam, situando essa atuação no clima de polarização contemporânea, registrando a adesão da Capitania do Espírito Santo ao movimento deflagrado no Rio de Janeiro e a tardia adesão da localidade de São Mateus, no norte da capitania, que embora juridicamente revista pela Ouvidoria de Porto Seguro, administrativamente respondia ao Espírito Santo. No terceiro capítulo o autor examina brevemente economia e finanças locais no final do período estudado.

 

Como foi que culminou todo esse processo aqui no Espírito Santo? Vou fazer um breve resumo, como exige o tempo, dos fatos acontecidos no Espírito Santo naquele período conturbado. Sabemos das posições políticas em confronto na ocasião, das opiniões a respeito da Revolução do Porto, que se desenrolava em terras lusitanas, opondo o retorno ao Pacto Colonial, de um lado, e do outro, a adoção do liberalismo, a pôr por terra o absolutismo dos governantes portugueses, ampliando as liberdades conquistadas com a implantação de um regime constitucional, que era, em suma, o objeto daquele movimento.   

 

 Também no Espírito Santo, quando começaram a repercutir as manifestações revolucionárias, o sentimento anti-português recrudesceu entre a população.  A partir de julho de 1821 as coisas “esquentaram”. Após o juramento da Constituição portuguesa, em 14 daquele mês, a tropa de linha sublevou-se, exigindo a destituição imediata do sargento-mor Francisco Bernardo de Assis, português, e sua substituição por José Marcelino de Vasconcelos, brasileiro e comandante da Companhia de Artilharia. 

 

Sobre os fatos narra Bittencourt no texto a que me referi: “à insubordinação da tropa houve a adesão de elementos civis contra a oficialidade portuguesa. A manifestação ganhou as ruas de Vitória, onde foram atacados estabelecimentos comerciais, generalizando-se o conflito, de que resultaram alguns feridos no tiroteio que se registrou. Sem forças para resistir [àquela reivindicação], capitulou o governador, empossando, interinamente, José Marcelino no comando do Corpo da Tropa de Linha”.

 

Nessa altura o governador Baltasar Vasconcelos, alvo da oposição, pedia insistentemente para se retirar da Província; esperavam-se arruaças, à vista da campanha contra ele deflagrada nos pasquins manuscritos colados nas paredes dos prédios de Vitória. O ano de 1821 encerrou-se nesse clima.  Em 2 de março de 1822 era eleita a junta governativa, na forma do Decreto de 29 de setembro de 1821. O Comando das Armas passou então ao Tenente Coronel Inácio Pereira Duarte Carneiro, “por ser o oficial de maior patente que na ocasião havia na província”, consta do ofício do governador. No entanto, este permaneceu no posto por apenas um mês, substituído, por ordem vinda do Rio de Janeiro, pelo Coronel Julião Fernandes Leão, português e de posição anti-brasileira, que assumira o cargo de Inspetor do Corpo de Pedestres em abril de 1821.

 

A Junta de Governo recebeu com surpresa a substituição de Duarte Carneiro por Fernandes Leão, e agitações se fizeram novamente sentir, iniciando-se um movimento de apoio a Duarte Carneiro. Este foi recolhido à prisão pelo novo Comandante das Armas, em comum acordo com o seu primo João Antônio Pientznauer, o cirurgião-mor de Vitória, que também ocupava o cargo de juiz ordinário da Vila. No seu História do Espírito Santo Maria Stela de Novaes refere-se a arbitrariedades cometidas pela dupla Julião Fernandes Leão – João Antônio Pientznauer. Esse estado de coisas, reportado pela Junta ao Rio de Janeiro, levou a que fosse enviado a Vitória o juiz-de-fora de Campos dos Goitacazes (que respondia à Ouvidoria do Espírito Santo), na condição de ouvidor e corregedor interino, José Libânio de Souza, para apurar os fatos e “pacificar” a Província. 

 

A apuração dos fatos por aquele funcionário fez acirrar os ânimos do Comandante das Armas, que, desentendendo-se com o próprio Ouvidor, determinou que este suspendesse a correição e se retirasse da Vila. Recusando-se Libânio de Souza a fazê-lo, o Comandante das Armas determinou o cerco à sua residência, isolando-o de qualquer comunicação. À vista desse fato finalmente reagiu a Junta governativa, operando a libertação do Tenente-Coronel Duarte Carneiro e sua proteção no Palácio do Governo. 

 

Sobre essa passagem narra Bittencourt:

 

 “Sem dúvida, no Palácio e em seu derredor concentraram-se as manifestações da Independência. Foi para lá que se dirigiu Fernandes Leão, acompanhado de seu ajudante, Antônio Cláudio Soído, disposto a derrubar a Junta, inconformado com os rumos dos acontecimentos. Aos gritos de ‘Abaixo a Junta! Morra a Junta’, seu ímpeto, entretanto, seria contido com a leitura da Proclamação do Príncipe Regente, determinando aos povos a obediência ao Governo Provisório. Unidos, Tropa, Guarda do Palácio e populares, o Comandante Julião não conseguiu realizar, portanto, o seu intento, tendo de refugiar-se em sua própria residência.”

 

Prossegue Bittencourt: 

 

“Apenas alguns feridos resultaram do incidente. O juiz Pientznauer, um dos membros da agitação, que já havia sido processado e com ordem de prisão decretada, fugiu para Campos, onde permaneceria por muito tempo. Finalmente, a 15 de agosto, toma posse o novo Comandante das Armas, Tenente Coronel Fernandes Teles da Silva, em substituição a Julião Fernandes Leão”.  

 

Este, a esta altura, já tinha sido detido e enviado para o Rio de Janeiro.

 

Removido o obstáculo Fernandes Leão, o Partido da Independência trabalhou ostensivamente no Espírito Santo, inclusive pela via do preenchimento dos cargos públicos (conforme recomendado em ofício de José Bonifácio à Junta Provisória de Governo do Espírito Santo em 21 de junho de 1822): ter em conta a posição política do candidato ao cargo passava a ser uma das condições para admiti-lo. Para cá foi enviado o desembargador Manoel Ribeiro Pinto de Sampaio, numa altura em que toda a província, à exceção das vilas de Guarapari e São Mateus, eram partidárias da Independência. 

 

Como uma província tampão, entre Salvador, sob o domínio das forças de Madeira de Melo, e o Rio de Janeiro, de onde irradiava o movimento de resistência, desenvolveu-se no Espírito Santo uma espécie de atividade de espionagem, em que informações eram repassadas daqui para o Rio de Janeiro: refira-se exemplo referido por Bittencourt, dando conta de que a 23 de agosto transmitia-se ao Rio de Janeiro, por ofício do governador a José Bonifácio, informações prestadas por uma escuna que chegara da Baía acerca da situação local, sobre as fortificações na capital baiana e sobre os reforços que eram aguardados de Portugal na altura.

Em resumo, entre insatisfação com a situação econômica contemporânea local e disputas fundadas na nacionalidade, a elite capixaba, muito mais nas pessoas dos detentores dos cargos administrativos e militares, engajara-se na causa da Independência, evitando qualquer apoio na forma de mantimentos ou munições às forças reacionárias estacionadas na Bahia. 

Finalmente, em outubro de 1822 proclamou-se publicamente na Província do Espírito Santo D. Pedro I Imperador do Brasil, à exceção de São Mateus, no norte da província. Dá conta o cronista Basílio Carvalho Daemon que “Houve nesta ocasião grandes festejos, iluminações e regozijo público, havendo dias antes sido admitido como sinal de anuência à nossa emancipação política o laço verde e amarelo no braço, e tope da mesma cor no chapéu”.

Quanto à vila de São Mateus, estava, como dito, sob a jurisdição da Ouvidoria de Porto Seguro, e seu mercado, principalmente de farinha de mandioca, dependia primordialmente da Bahia. No período houve registro de diversos casos de embarcações que saíam da localidade carregadas de mantimentos em direção a Salvador, para apoio às forças reacionárias, inclusive notícias de sua apreensão. Finalmente uma tropa mandada de Vitória, que obtivera a adesão da Vila de Caravelas, hoje na Bahia, acabou por fazer a Proclamação em 28 de janeiro de 1823, a que, forçada pela presença militar, aderira a Câmara mateense, em 21 do mesmo mês. Finalmente então, a partir de janeiro de 23, toda a província do Espírito Santo aderira à Independência.

De forma muita sucinta, pode-se dizer que os ânimos na então capitania do Espírito Santo eram, por força da conjuntura local, desde logo favoráveis ao Príncipe D. Pedro e à causa da Independência, o que acabou reforçado pela conduta de autoridades contrárias ao movimento. O episódio em frente ao Palácio do Governo foi o ápice da movimentação popular na capital em favor do novo estado de coisas que se pretendia implantar.

(texto revisto da palestra proferida no VII Colóquio dos Institutos Históricos e Geográficos Brasileiros organizado pelo IHGB)

25 de julho de 2022

A sede da Academia Espírito-santense de Letras: legado do Acadêmico Kosciuszko Barbosa Leão

Tela de Katia Bobbio
Decidida a fundação de uma entidade de caráter cultural, problema de monta a   equacionar pelos entusiastas é o de local adequado para sediar a instituição. Deliberada sua fundação na reunião preparatória, realizada a 31 de julho de 1921 na sede do Clube dos Bohemios, que à altura abrigava o Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo, a Academia Espírito-santense de Letras percorreu a partir daí diversos endereços, no intuito da realização das reuniões e atividades que se propôs realizar. 

Vinte anos depois da fundação, e atacando de frente o problema, foi que logrou o presidente Eurípides Queiroz do Valle conseguir localização condigna para a Academia, alojada a partir de 1942 (data da inauguração do prédio, situado na Praça Oito de Setembro), na sala n.º 05 do Banco de Crédito Agrícola do Espírito Santo, cedida à instituição pelo Interventor Punaro Bley[1]. Mais de vinte anos aí esteve sediada a Casa, que abrigou também no seu recinto as reuniões da Academia Capixaba dos Novos, durante toda a efêmera existência do sodalício.

Em novembro de 1963 foi realizada na sede do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo uma Assembleia Geral Extraordinária para atualização do Estatuto e eleição de nova diretoria, sendo o presidente Queiroz do Valle sucedido na presidência pelo acadêmico Ceciliano Abel de Almeida. Naquela assembleia o presidente Queiroz do Valle afirmou constituir “ponto de honra do final de sua gestão dotar, proximamente, a Casa de Saul de Navarro de nova sede, em face da construção do novo edifício do Banco de Crédito Agrícola do Espírito Santo, onde se situa a atual”[2]. Ficava, assim, a Academia, privada da sua sede[3].

Retornando, simbolicamente, às origens (isto é, à casa do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo), aí se realizaram algumas reuniões subsequentes. No entanto, por essa época o IHGES começava a ocupar-se da reformulação da sede, que resultaria na demolição do antigo prédio do Clube dos Bohemios e início da construção do Edifício Domingos Martins, na Avenida República. Reiniciou a Academia a sua peregrinação, passando a reunir-se na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade Federal do Espírito Santo, na sede do Conselho Estadual de Educação (localizada no edifício Ruralbank, na Praça Oito de Setembro), no auditório da Companhia Vale do Rio Doce (localizado no edifício Fábio Ruschi) e até na sala de reuniões da Livraria Âncora. 

Obviamente o problema da sede voltava a ocupar a Academia. Tornando-se mais agudo, providências vinham sendo tomadas a respeito. Assim é que, na reunião de 17 de setembro de 1975, foi lido ofício do Secretário Estadual de Educação e Cultura, Alberto Stange, comunicando a inclusão, na proposta orçamentária do Estado para o triênio 1976/1978, da importância de Cr$ 1.200.000,00 (hum milhão e duzentos mil cruzeiros) “para aquisição da nossa sede, dependendo a sua aprovação da publicação do Orçamento”. Na mesma reunião foi designado o Acadêmico Paes Barreto Filho “para os necessários contactos, a fim de que a nossa Academia possa conseguir a sua sede no prédio do Instituto Histórico e Geográfico, cuja construção se está iniciando”. Prossegue o presidente, e “faz apelo a todos para que colaborem na consecução do nosso antigo sonho, - a sede própria” [4]. Na reunião seguinte, a 15 de outubro, o Acadêmico Ruy Cortes informou de entendimento mantido com o Secretário Estadual de Planejamento “visando à inclusão de Cr$ 400.000,00 do total da verba de Cr$ 1.200.000,00, no orçamento de 1976, destinados à aquisição da sede para a Academia”[5]. A intenção era, então, sediar a Academia no mesmo logradouro em que hoje está sediado o Instituto Histórico e Geográfico. 

Nascido na Serra, em 1889, o Acadêmico Kosciuszko Barbosa Leão ocupava a cadeira 36, cujo patrono é José Joaquim Pessanha Póvoa. O velho acadêmico, veterano de lides educacionais e culturais na capital, não esteve presente às reuniões acima, tendo justificado ausência. Mas foi graças a ele, e em meio a um tal estado de ânimo na Casa, que a 24 de dezembro de 1975 realizou-se a primeira reunião no imóvel que hoje abriga a Academia: sacramentava-se naquele ato a doação do imóvel-residência do casal Kosciuszko Barbosa Leão e dona Laura Madeira de Freitas Leão, gesto de generosidade que pôs fim, 54 anos depois da fundação, à busca por uma sede própria para a associação.     

 A propósito, a ata lavrada daquela reunião pelo secretário Aylton Rocha Bermudes registra: “na sala de visitas da residência do ilustre casal Prof. Dr. Kosciuszko Barbosa Leão e exma. Senhora, D.ª Laura Madeira de Freitas Leão, à Praça João Clímaco, nesta Capital, realizou a Academia Espírito-santense a 10.ª reunião do fluente ano”[6]. À memorável reunião estiveram presentes os acadêmicos Kosciuszko Barbosa Leão, Nelson Abel de Almeida, José Paulino Alves Jr., Guilherme Santos Neves, Adelpho Monjardim, José Vieira Coelho, Cristiano Fraga, Augusto Lins, Placidino Passos, Aylton Rocha Bermudes, Paes Barreto Filho, Ruy Côrtes e Ivo Amâncio Oliveira. Esclarecendo o significado especial da reunião, o presidente, Nelson Abel de Almeida,


disse que ia celebrar-se, naquele instante e local, um ato da mais alta e significativa importância para a Academia Espírito-santense de Letras, com reflexos na vida cultural do Estado – a assinatura da escritura de doação, feita pelo nosso eminente confrade Kosciuszko Barbosa Leão, com a outorga de sua exma. esposa, Sr.ª Laura Madeira de Freitas Leão, do imóvel de sua propriedade, sito à Praça João Clímaco, nesta Capital, à nossa Academia.

 

Nos termos da escritura, a Academia investia-se desde logo do direito de uso dos dois pavimentos superiores do imóvel, “que são o segundo e o mirante”[7].

O Acadêmico Kosciuszko Barbosa Leão, então com 86 anos de idade, sentia a passagem dos anos. Autor de, entre outros, Meditações, JTM, Alma e Deus, a fala do antigo Chefe de Polícia e ex-diretor da Faculdade de Direito esclarece o seu duplo propósito: homenagear a Academia, ao mesmo tempo que a dotava de uma sede condigna. Para tanto franqueava-lhe desde logo o seu local de contemplação, de trabalho intelectual. 

Como homenagem ao benfeitor da Academia segue transcrito na íntegra sua comovida fala na ocasião, resgatando-a da poeira dos livros de atas:

Prezados confrades: eu não sei como poderia, se o tentasse, descrever minha cena interior nesta solenidade. É que me domina um permanente estado emocional, agravado, necessariamente, pelas circunstâncias do momento. É, de um lado, o ato cuja celebração constitui o fim que ora aqui nos reúne – a doação à nossa excelsa Academia de Letras, desta casa, objeto de grande estima, particularmente na parte que, durante muitos anos, foi o meu lar espiritual e meu santuário, onde tanto vivi em sentimento e pensamento, rezando as minhas comovidas orações de culto da beleza e das ideias. É, de outro lado, a situação psicológica inerente à minha idade e reanimada nesta celebração. A velhice é a última estação que a alma faz na peregrinação para o seu destino na terra, estação sem horizonte, porque não há mais esperança, e sem esperança, porque não há mais futuro. E, por isso, ela vive apenas de passado, debruçada sobre o panorama dos dias idos, com as imagens das suas lutas e das suas dores, companheiras inseparáveis dos que não tiveram a companhia dos pais e, sem experiência, caminharam sozinhos e errantes por vias desconhecidas. Nesta doação, feita nos últimos dias de minha vida, eu sinto que há um pouco de despedida. Nela, todavia, existe, para mim, um contraste de sentimentos, a alegria de uma renascença. Parece que vou viver de novo, pelo convívio, que nunca tive, com os meus doutos confrades, convívio propiciado pela circunstância da vizinhança, que a doação estabelece. Desejo agora definir esta doação, como um símbolo material de uma doação moral. Decidi doar minha casa à nossa Academia de Letras, porque já lhe havia doado o coração. E devo assinalar que não é maior em mim do que na minha santa companheira, o entusiasmo com que é prestada essa homenagem. Quando meus problemas me fizeram, certa vez, adiar a celebração do ato, ela acorreu cuidadosa, para encarecer a sua prioridade. Cumpre também registrar o meu contentamento pela coincidência da doação com o exercício da presidência da nossa Academia pelo eminente confrade Dr. Nelson Abel de Almeida, meu amigo e meu parente, que, no seu devotamento à entidade, acolheu a dádiva com grande mostra de satisfação, como se fosse prestado a ele, pessoalmente, esse tributo de solidariedade. Mas, prezados confrades, há um coração maior que os de todos nós, a receber nesta casa, a Academia de Letras como sua dona: é o Coração de Jesus, exposto sobre o peito de sua imagem, que, em seu altar no pórtico desta sua nova morada, aí lhe estende os braços, abertos para estreitá-la com amor, abençoá-la com sua graça e lhe garantir com segurança toda felicidade”.                  

 

Como não poderia deixar de ser, tamanho gesto de generosidade e amor à instituição foi condignamente reconhecido pelos confrades. Na primeira reunião “na sua nova sede”, em 17 de março de 1976, propôs o Acadêmico Ruy Côrtes fosse imortalizado em bronze o busto do Acadêmico benfeitor, tendo o Acadêmico José Paulino sugerido “a aposição dos retratos do Prof. Kosciuszko e de sua exma. senhora, D.ª Laura Madeira de Freitas Leão, na sala de reuniões”[8]. Os retratos continuam ainda hoje a ornar a sala das reuniões acadêmicas. 

O busto, obra do escultor Carlos Krepas, foi inaugurado um ano depois, na sessão solene de 02 de dezembro de 1976. Anotou o secretário Aylton Bermudes que aquela reunião se realizava “para a inauguração do busto, em bronze, do acadêmico Kosciuszko Barbosa Leão, homenagem a seus méritos de escritor e cidadão e reconhecimento pela doação de sua casa de residência à nossa Academia”. Com a presença de inúmeros acadêmicos e convidados, entre eles o reitor da Universidade Federal do Espírito Santo, o homenageado falou de improviso, tendo sido o discurso oficial de agradecimento lido por seu sobrinho, dr. Sólon Leão[9].

De fato, levando para dentro da sua residência o convívio dos confrades, o professor Kosciuszko esteve presente em todas as subsequentes reuniões da Academia (à exceção das sessões solenes de posse de novos acadêmicos, ocorridas fora da sede) até o seu falecimento, a 20 de maio de 1979. Na reunião em que foi homenageado, em 20 de junho de 1979, homenageou-se também, coincidentemente, o outro acadêmico que a seu tempo dotara a Academia de sede própria: Eurípides Queiroz do Valle, falecido a 6 de junho do mesmo ano[10]. 

Creio ser de justiça, a esta altura, relembrar os benfeitores da nossa casa. Neste texto, dada a exiguidade de espaço, focou-se rapidamente a aquisição da sede, sem descurar das ações de outros dois acadêmicos que se notabilizaram por favorecerem materialmente a instituição.  

Desde a doação da sede, à Academia Espírito-santense de Letras dá-se a qualificação de “Casa de Kosciuszko Barbosa Leão”. Em 2020, véspera do seu centenário de fundação, a instituição conta 45 anos de ocupação da sede definitiva. Os volumes doados pelo Acadêmico Álvaro Henrique Moreira de Souza integram o acervo da Biblioteca Saul de Navarro. O Acadêmico Eurípides Queiroz do Valle permanece nos anais da instituição como o que por mais tempo lhe dirigiu os destinos.

(publicado na edição de 2021 da Revista da Academia Espírito-santense de Letras)

 



[1] Ata da sessão de 9 de abril de 1942. Livro de atas n.º 02 (1939 -1943), pág. 80/81.

[2] Ata da Assembleia Geral Extraordinária realizada a 18 de novembro de 1963. Livro de Atas n.º 3 (1943 – 1976), pág. 15/17.

[3] Cabe, aqui, um parêntese: entre os seus benfeitores conta a Academia Espírito-santense de letras como o primeiro deles o Acadêmico Álvaro Henrique Moreira de Souza (Saul de Navarro), escritor e palestrante festejado, que em 1947, pouco antes de seu falecimento, fez doação à casa de precioso conjunto de obras que constam do acervo da Biblioteca Saul de Navarro. As fotos relativas à inauguração da Biblioteca, a 04 de setembro de 1947, foram publicadas em NEVES, Getúlio M. P. (org.). Documentos da Academia: Academia Espírito-santense de Letras. Vitória: AEL, 2007.  

 

[4] Ata da reunião mensal de 17 de setembro de 1975. Livro de Atas n.º 03 (1943 – 1976), pág. 85v./86v,

[5] Ata da reunião mensal de 15 de outubro de 1975. Livro de Atas n.º 03 (1943-1976), pág. 87/88v.

[6] Ata da sessão extraordinária de 24 de dezembro de 1975. Livro de Atas n.º 03 (1943 – 1976), pág. 90/92.

[7] A escritura pública de doação do imóvel foi registrada em 22/12/1975, às fls. 133v/136 do Livro 294 do Cartório do 1.º Ofício de Notas de Vitória e foi publicada em NEVES, Getúlio M. P. (org). Documentos da Academia: Academia Espírito-santense de Letras. Vitória: AEL, 2009.

[8] Ata da reunião mensal de 17 de março de 1976. Livro de Atas n.º 03 (1943-1976), pág. 93/94.

[9] Ata da sessão extraordinária do dia 2 de dezembro de 1976. Livro de Atas n.º 04 (1976 – 1984), pág. 6/7. 

[10] Ata da sessão do dia 20 de junho de 1979. Livro de Atas n.º 04 (1976 – 1984), pág. 31/32.

7 de maio de 2022

De antiguidades judicantes

Sabemos que atingimos uma certa antiguidade na atividade a que nos dedicamos quando somos procurados para “prestar depoimento”. A minha primeira vez não deixou de ser um susto, mas logo me acostumei com a ideia e procurei colaborar. Minha interlocutora se tratava de uma repórter da Assessoria de Comunicação do meu Tribunal de Justiça, pelo que me dei conta de que o público para quem falava entenderia o que eu tinha a dizer.

Gravando a conversa no celular, um aperfeiçoamento do gravador digital, a pergunta que me lançou de cara é como eram os tempos do ofício no século passado, isto é, antes dos anos 2000. Ora, pensei eu, tanta gente ingressada na magistratura nos anos 90 ainda em atividade, e por que era eu o escolhido para o tal depoimento? Desconfiei que a barba que ando cultivando e me emoldura de branco o rosto deve contribuir para um ar mais retrô, a critério dela. O fato de eu me mostrar sempre acessível ao pessoal da Comunicação deve ter a ver também, vá lá. 

Mas então pus-me a matutar na pergunta, e a recordar fatos e pessoas que permearam minha trajetória de quase três decênios de trabalho judicante. Jurisdicionados também, que no final das contas casos e casos nos marcam de alguma maneira. Sim, quase três decênios de atividade judicante significam alguma coisa. Principalmente para quem, como minha interlocutora, não os tinha sequer de vida. 

Entretanto a moça me fitava e esperava que eu iniciasse a narrativa. O momento de silêncio, se gastava memória do aparelho, servia para ativar a minha. De fato, eu não cheguei a viver os tempos em que o juiz trazia de casa a minuta de sentença rascunhada à mão, que entregava ao escrivão para que alguém do cartório a datilografasse. Geralmente o próprio escrivão o fazia, já que era a pessoa de confiança dos juízes. Chegávamos ao interior e nos dirigíamos exatamente ao escrivão, o servidor que sabia de todo o serviço na Comarca. Por óbvio, passávamos juízes e promotores, ficavam as lides, os processos (não necessariamente as lides eram todas judicializadas naquele tempo, meios alternativos de solução de litígios eram aplicados, mesmo que não institucionalmente) e a vida da comunidade seguia seu curso.

Recordo-me da minha chegada à Vara militar para assumir a titularidade. Perguntei pelo escrivão, que me foi apontado. Sentado estava, sentado permaneceu. Disse-lhe que estava assumindo a titularidade, e que desejava conhecer as dependências da unidade judiciária. Olhou-me e perguntou meu nome, ao que lhe apresentei a carteira funcional. Conferiu o ato do presidente do Tribunal de Justiça determinando minha remoção, e então levantou-se e enquadrou-se como só um oficial PM “das antigas” é capaz de fazer. Foi o início de uma grande colaboração em matéria de serviço e de uma amizade que se manteve ao longo do tempo.

Deixando de lado a figura imprescindível dos escrivães (hoje chefes de secretaria), o fato é que eu particularmente não cheguei a levar minutas rascunhadas à mão para digitar no cartório: logo depois da posse adquiri um microcomputador, um avançado 386 - que nos meus tempos de curso de Engenharia no Rio de Janeiro eram usados na Faculdade pelos estudantes de mestrado. Nós, graduandos, virávamo-nos para os trabalhos obrigatórios com as perfuradoras de cartões – os cartões que traduziam em linguagem de máquina o nosso programa, e que deveriam ser entregues na ordem correta para inserção no cérebro eletrônico. Que avanço incrível, pensei na época, em menos de 10 anos aquelas maquininhas deixarem os laboratórios dos centros tecnológicos mais avançados para serem usadas ali da mesa do meu escritório! 

Devido à sedução que sobre nós exercem os avanços tecnológicos foi que resolvi levar para a sala de audiências um microcomputador, no intuito de facilitar os trabalhos. E levei um 286, que se prestaria muito bem ao serviço. Opinião que, logo percebi, não era partilhada pela escrevente que me fazia as audiências: em vias de ser avó, era-lhe exigido que trocasse por aquele aparelho a máquina de datilografia que a acompanhou em toda a carreira no serviço público! Não adiantou chamar-lhe a atenção para o fato de que os teclados de ambas as geringonças eram iguais: dias depois, a gentil senhora preferia passar a autuar processos no cartório a aprender a utilizar os recursos que a tecnologia passaria então, e inexoravelmente, a disponibilizar.  

A propalada explosão de litigância se deveu também às facilidades que a tecnologia introduziu nos vetustos serviços judiciários. Tantos recursos – memória para acessar os intermináveis repositórios de jurisprudência, um editor de texto que permitia deletar trechos inteiros sem borrar a folha com borracha ou corretor, comunicação pela rede mundial de computadores (algo que, se nos punha em contato com o mundo todo em segundos, imagine com o juiz ali da minha cidade) –, tudo num aparelho só, por certo chacoalhou a nossa visão de mundo. Por isso lembro com carinho da minha escrevente que não se adaptou aos novos tempos, e que felizmente para ela logo se livrava da maçada pelos braços afáveis da aposentadoria. 

Esse olhar sobre o que se passava à volta, e não apenas sobre o que ia nos autos, passou-se a exigir cada vez mais do juiz desde então. Ao “juiz técnico” dos anos 90, o craque em filigranas processuais civis, passava-se a exigir que adquirisse conhecimentos de gestão - de pessoas e de processos -, a fim de administrar uma massa processual que passou a se multiplicar exponencialmente. Por outro lado, a sociedade, alertada dos seus direitos e consciente da função desempenhada pelo Judiciário, passou a exigir respostas rápidas às demandas que se punham, algumas delas impensáveis na época das Olivetti cartorárias.

- Contado assim parece lamentação, sorri para a repórter -, e, no entanto, foi o que passamos todos nós que ingressamos no serviço judiciário no início dos anos 90. “Aqueles para quem as regras de aposentadoria se alteram tanto”, pensei, mas guardei comigo.

A vida das pessoas mudou, e muito. A relação do público com agentes e servidores públicos da mesma forma. Lembro-me, por exemplo, dos cartazes em repartições públicas reproduzindo o texto do art. 331 do Código Penal: desacatar funcionário público..., sobre que, hoje em dia, se veem debates, jurídicos e não, quanto à descriminalização da conduta.   

   Para os colegas que adentraram há pouco, a vida sem o processo judicial eletrônico parece impensável. Eficiência, presteza, esses adjetivos cuja perseguição diária é exigência inerente à função judicante, nem sempre foram percebidos da maneira como os percebemos hoje. De juízes do meu Tribunal de Justiça que em tempos recuados portaram armas por conta de disputas lindeiras envolvendo a sua Comarca a outros, que na calada da noite iam para a beira de rios coibir pesca ilegal, num prenúncio das lides ambientais que então ainda não se punham, esses “antepassados” eram também eficientes e prestos. Prontos a responder às demandas que a eles chegavam, na forma que a sociedade deles exigia à época.

É por isso que, ao acompanhar pela internet sessões de tribunais em que o julgador se faz acompanhar de um assistente que liga e desliga o microfone, penso comigo que aquele agente público viu o mundo mudar muitas vezes no espaço de tempo da sua carreira. Que o aperfeiçoamento constante não é acompanhado no mesmo ritmo por todos, e que as exigências que sobre ele recaem serão certamente supridas, como deve ter-se acostumado a fazer por todo o tempo em que vem desempenhando o serviço.

No caso da entrevista, creio que acabou bem. Não é que a repórter não sabia usar a plataforma na qual passei a realizar audiências diariamente desde a pandemia? Passei-lhe uns macetes para operar a sala. 

          Ou terá se tratado de simples delicadeza de parte dela? Será que o embranquecer da barba já começa a me atrair delicadezas? Vou começar a pensar nisso, mas em todo caso, fica aí o registro.          

7 de abril de 2022

A Pós-reunião de ontem no Instituto Histórico

O congraçamento entre confrades, consócios – amigos, enfim – é parte importante da convivência em associações culturais. Exemplos de encontros à mesa, de jantares ou de bar, não faltam para prover a curiosidade de quem se dispuser a escavar antiguidades literárias (ou associativas, que seja). Os jantares do PEN Clube do Brasil são exemplos de gala, pode-se dizer, nesse segmento. Mas contam-se inúmeros outros, de que ficaram registro, aqui e algures.

 

O Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo tem páginas memoráveis (digamos assim) nesses domínios do congraçamento de confrades feitos comensais. E sem dúvida o período áureo dessa espécie de iniciativa é o da presença (e muito mais da presidência) de Miguel Depes Tallon. Miguel, de quem tive o prazer de comentar trechos selecionados da obra para um volume da coleção Roberto Almada, de 2017, era conversador nato, e juntava a essa característica as de bebedor rigoroso e gourmet criterioso. E gostava de companhia. Ao final das atividades presididas por ele no Instituto Histórico não eram raros os convites para que o acompanhassem numa pizza ali mesmo na Avenida República, em estabelecimento amigo. Ou para excursões cidade adentro, até o seu pouso seguro do Bar do David, em Jucutuquara. Ali Miguel congregava consócios e confrades em torno da mesa de comes e bebes, de onde muita coisa memorável saía, atestam-no (até em causa própria) os frequentadores remanescentes.

 

Miguel se foi em 1999, mas o seu espírito agregador continuou na reunião semanal que muito teve do concurso dele e do pessoal do IHGES: o Sabalogos, que, se não com esse nome, até ao início da pandemia de 2020 manteve unidos apreciadores sabadais do papo e do copo – mas aí, e melhor dizendo, da xícara de café. E as reuniões gastronômicas vindas daquela época (e inclusive com direito a ata), os memoráveis almoços de sábado, se mantiveram no tempo, mesmo rareados pela falta de alguns frequentadores mais assíduos e mais entusiasmados dentre eles, que assim é a vida.

 

De tudo isso conclui-se fazer parte de uma certa tradição no IHGES o esticar o assunto, a convivência,

enfim, para depois das reuniões, prosseguindo até algum canto da cidade naturalmente acolhedor no quesito estabelecimentos etílico-gastronômicos. A Jucutuquara da predileção do Miguel, terra do Barão de Monjardim e da escola campeã do carnaval, é um deles - reúne, um defronte ao outro, dois pontos propícios ao alargar da conversa entre confrades cansados da labuta histórico-geográfica. Por ocasião da terceira reunião do IHGES no ano de 2022, no dia em que caiu a exigência das máscaras, fomos homenagear o Miguel no bar em frente ao “seu”, o Bar do Ceará, dos pastéis famosos. Não era data especial que se comemorasse: fazia não redondos setenta e três anos e alguma coisa de seu nascimento e vinte e dois anos e alguma coisa de seu falecimento. A homenagem se fazia mais ao aludido exemplo de conversador e comensal que era o Miguel, qualidades imprescindíveis nessas ocasiões. E foi devidamente lembrado e homenageado pelos presentes, a maioria seus companheiros de reunião no Instituto Histórico daqueles dias. Brindamos a ele, nem todos bebemos à sua memória, que os tempos são outros e a Lei Seca está em vigor. Mas quem sabe não estivesse ele por ali à espreita, com o sorriso bonachão que esboçava no prazer de ver-se cercado de amigos, bebessem ou não com ele. 

 

Olhe por nós, presidente Miguel, pela nossa casa que retoma com força as atividades. E agora com o calor da presença dos associados, a que brindamos ontem e como deve ser sempre.                




1 de abril de 2022

Ana Néry, a "mãe dos brasileiros" na Guerra do Paraguai


 A deflagração de uma guerra, é fato inconteste, afeta profundamente a população das nações envolvidas, cobra a todos pesados sacrifícios para suportar as exigências de manter em movimento engrenagens excepcionais e temporárias, mas extremamente exaurientes, de recursos e de forças humanas. Nestas ocasiões costumam sobressair o engenho e a tenacidade de pessoas e grupos, não só em matéria de planejamento e logística, como também do desenvolvimento de soluções para problemas surgidos de forma muitas vezes inesperada e dramática, e que devem ser devidamente equacionados, sob pena de consequências indesejáveis. Paralelamente a isto, sobressaem os esforços individuais, os atos de abnegação, de coragem e de heroísmo que, exigidos de cada um pelas circunstâncias, revelam a substância de que cada qual é feito.

Como experiência social, portanto, a guerra historicamente envolve populações inteiras, que suportam invasões de territórios ou que se deslocam juntamente com os exércitos em movimento, em busca do objetivo almejado. À mobilização coordenada de esforços industriais, em sentido amplo, e humanos, no sentido mais dramático, se chama esforço de guerra, e é circunstância a se ponderar na fase do planejamento das ações. Já com relação ao desenrolar do conflito pode-se usar da expressão, como exercício bem-intencionado de uma espécie de licença poética, para referir os feitos de armas e a atuação individual notável, geralmente de personagens esquecidas nas ordens do dia e nos boletins de comando. 

 

É, aliás, o sentido em que a expressão é empregada neste texto, que toma como inspiração o volume Episódios Militares, de autoria do General J. S. de Azevedo Pimentel[1], combatente e cronista do que foi o maior conflito armado travado na América do Sul: a Guerra da Tríplice Aliança. Iniciada, como se sabe, pela ação paraguaia em 27 de dezembro de 1864 contra o Forte de Coimbra, só se encerrou a 1. de março de 1870, com a morte do presidente paraguaio Solano López em Cerro Corá. Durante os pouco mais de cinco anos de conflito, o esforço de guerra suportado pelo Império do Brasil, isso nos dois sentidos, o técnico, propriamente, e aquele outro que assinalei acima, foi sem dúvida tremendo.

 

Aqui interessam-nos fatos ocorridos naquela campanha e referentes a ações individuais meritórias. Fixar-nos-emos, ainda que brevemente, sobre atuação individual de grande valor, bastante conhecida, devidamente reconhecida e ainda hoje considerada, de uma mulher que vivenciou da forma mais dramática aquele conflito. 

 

Para acercarmo-nos do objeto de abordagem, socorramo-nos das ideias do autor referido acima, que, como dito, atuou no campo e deixou registros de fatos e de caracteres julgados dignos de tanto, a seus olhos de soldado calejado. Como bom comandante, exaltava ações meritórias, lamentando a fortuna de alguns que viu em ação, de cujos nomes não se guardou registro, a seu ver injustamente. 

 

Relembrando esses trabalhos dignos de nota, refere o autor casos de mulheres combatentes, de que citaremos dois: o primeiro, de Maria Curupaiti, de quem diz: “O Brasil teve uma heroína na maior extensão do vocábulo. Chamava-se Maria Francisca da Conceição” - e passa a desfiar a história da jovem que, apesar da proibição superior, disfarçou-se de homem e seguiu na peleja o marido, afinal morto em combate[2]. O segundo, de uma Florisbela, que atuou como soldado na frente de batalha e nos hospitais de campanha, quando “marcava seu lugar à cabeceira dos doentes”, e sobre quem o autor conclui: “a essa heroína do Paraguai também cabe a honra de figurar na história”[3] [4].

 

Prossegue a argumentação, comparando a fortuna da última com a do vulto feminino notável que é o objeto do estudo aqui. E assim, para o fim de finalmente apresentá-la, retornemos a palavra ainda uma vez a Azevedo Pimentel:

 

D. Ana Néri, em cenário diferente, exercia a nobre missão de seu sexo. Era a caridade e a paz. Era a viúva honrada que espargia pelos necessitados tudo quanto a bondade de um coração maternal é capaz de fazer por um filho. Muitas vidas salvou com seus desvelos e carinhos. Estava envelhecida no serviço da Pátria.[5]

 

E prossegue:

 

A Pátria, porém, cobriu-a com o manto da sua gratidão.

Pagou a dívida, e ela, sem nada exigir, sempre heroica, manteve-se na altura de seu caráter. Sempre bondosa e digna, como brasileira ilustre que era.[6]  

 

Quem foi, afinal, essa mulher a quem chamamos vulto notável, que granjeou por sua atuação tamanha consideração e cuja fama permanece viva nos nossos dias? Vejamos então, em brevíssimas pinceladas. 

 

São dados mais do que correntes que Ana Justina Ferreira Néri nasceu na Bahia, em 1814, tendo-se casado aos 23 anos com o capitão de fragata Isidoro Antônio Néri. Seis anos depois enviuvou e passou a cuidar sozinha dos três filhos, um deles seguindo a carreira militar e os outros dois abraçando a medicina. 

 

Nesse ponto é que sua vida é dramaticamente trespassada pelos acontecimentos, alcançando-a em cheio o grande conflito: os filhos e outros parentes engajam-se nos Corpos de Voluntários da Pátria e partem para os campos de batalha do Paraguai. É, portanto, em virtude desse fato que tomará a resolução que marcará a sua vida, solicitando permissão ao presidente da província para acompanhar os combatentes, oferecendo serviços de ajuda aos feridos em combate.

Acima ficou dito que por ocasião de conflitos bélicos costuma aflorar o engenho humano na elaboração de soluções para os dramáticos problemas a serem equacionados. Um dos campos cujo desenvolvimento foi exigência direta das necessidades surgidas em conflito foi a Enfermagem. De fato, é dado aceite sem maiores hesitações que a moderna enfermagem foi iniciada por Florence Nightingale, reformadora social e escritora inglesa, que se destacou como chefe e treinadora de enfermeiras durante a Guerra da Crimeia (1853 – 1856). Logo depois, em 1860, Nightingale organizou em Londres uma escola de enfermagem no Hospital Saint Thomas, lançando as bases da enfermagem profissional. O dia mundial da Enfermagem, 12 de maio, é o dia do seu nascimento.    

  

Retornando a Ana Néri, fadada a trilhar caminhos semelhantes e tão pouco tempo depois de Nightingale, vejamos o ânimo que a movia naqueles dias do início do conflito, pela transcrição da carta que remeteu ao presidente da província da Bahia, o Dr. Silva Dantas: 

 

Ilmo. exmo. sr. Tendo já marchado para o Exército dois de meus filhos, além de um irmão e outros parentes, e havendo-se oferecido o que me restava nesta cidade, aluno do 6. ano de medicina, para também seguir a sorte de seus irmãos e parentes na defesa do país, oferecendo seus serviços médicos – como brasileira, não podendo ser indiferente aos sofrimentos dos meus compatriotas e, como mãe, não podendo resistir à separação dos objetos que me são caros, e por uma longa distância, desejava acompanhá-los por toda parte, mesmo no teatro da guerra, se isso me fosse permitido; mas, opondo-se a este meu desejo a minha posição e o meu sexo, não impedem, todavia, estes dois motivos, que eu ofereça os meus serviços em qualquer dos hospitais do Rio Grande do Sul, onde se façam precisos, com o que satisfarei ao mesmo tempo os impulsos de mãe e os deveres de humanidade para com aqueles que ora sacrificam as suas vidas pela honra e brio nacionais e integridade do império. Digne-se v.exa. de acolher benigno este meu espontâneo oferecimento, ditado tão somente pela voz do coração.[7]

 

O mandatário aquiesceu a tão desprendido oferecimento, fazendo-o nos termos seguintes: 

 

Aceito, pois, tão espontâneo oferecimento, e vão ser expedidas ordens ao conselheiro comandante das Armas, com quem se entenderá v. m. para ser contratada como primeira enfermeira e brevemente seguir para o Rio de Janeiro.[8]

     

Deixou a Bahia em agosto de 1865, partindo para o Rio Grande do Sul e daí para o teatro de operações, onde passou a construir e dirigir hospitais de sangue para socorro dos feridos de guerra. Atuou por todo o tempo do desenrolar do conflito, sempre na linha de frente, em Salto, Corrientes, Humaitá, Assunção... No mesmo texto do jornal Diário Carioca de onde se transcreve a correspondência com o presidente da província da Bahia consta citação de uma legenda envolvendo a “voluntária da caridade”, e que para dar ideia de seu valor vai reproduzida como lá aparece:

 

Conta-se que ‘certo dia, entre os mortos e feridos transportados ao acampamento Ana Néri encontra o cadáver desfigurado de um dos seus filhos, que morrera em combate. A valorosa dama, recalcando no âmago do coração a dor que o lacerava, não deu mostras de fraqueza e continuou a prestar socorros aos que deles necessitavam – soldados brasileiros, argentinos e paraguaios, como também as viúvas e órfãos da guerra’.[9]

 

Encerrado o conflito, acompanharam-na na volta dos campos paraguaios a consideração e o prestígio traduzidos nas palavras registradas na obra de Azevedo Pimentel. Quanto ao “pagamento da dívida” pela Pátria coberta de gratidão, de imediato foram-lhe oferecidos presentes da parte do povo da sua província e de senhoras baianas residentes no Rio de Janeiro, teve o retrato pintado a óleo em tamanho natural pelo genial Vitor Meireles, batizou com seu nome uma das ruas da capital do império e recebeu do governo imperial uma pensão anual, além das medalhas “Humanitária” e de “Campanha”. 

 

Como ocorrido com Florence Nightingale, o exemplo de liderança de Ana Néri, somado ao fato do desenvolvimento por ela de práticas inovadoras, levaram a que, 46 anos depois do seu falecimento, ocorrido em 1880, fosse batizada com seu nome a primeira escola de enfermagem do Brasil, que havia sido criada em 1923.

 

No desespero dos hospitais de campanha, na cabeceira dos leitos dos feridos, aquela que foi chamada “mãe dos brasileiros” tratava aos soldados por “seus filhos”. Cento e cinquenta anos passados, as palavras de Azevedo Pimentel sem dúvida ainda se aplicam: de Ana Néri permanece indelével a memória.


[1] PIMENTEL, J. S. de Azevedo. Episódios Militares. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1978. O autor, natural de Rio Formoso/PE, foi o primeiro na sua cidade a se alistar nos Corpos de Voluntários da Pátria. Percebido pelo comando o seu nível intelectual, foi imediatamente promovido a segundo sargento. Retornou da campanha como capitão, tendo chegado a general honorário pelos bons serviços prestados ao país.  

[2] PIMENTEL (1978, p. 149-150)

[3] PIMENTEL (1978, p. 20)

[4] Relembre-se que as mulheres sempre estiveram presentes nas guerras, acompanhando familiares, ou como vivandeiras, ou como enfermeiras, ou – como cada vez mais posto em destaque – como combatentes. Sobre o último tema refiram-se, a título de exemplo: CAIRE, Raymond. A Mulher Militar: das origens aos nossos dias. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 2002; NASH, Mary & TAVERA, Susanna. Las Mujeres e las Guerras: El papel de las mujeres en las guerras de la Edad Antigua a la Contemporanea. Barcelona: Icaria, 2003; JONES, David E. Women Warriors: a history. Dulles: Potomac Books, 2005; VALCÁRCEL, Isabel. Mujeres de armas tomar. Madrid: Algaba, 2005.      

 

[5] PIMENTEL (1978, p. 20). 

[6] Idem

[7] PALHA, Américo. Ana Néri. Diário Carioca, edição 05490, 19/01/1946, pág. 7.   

[8] Idem

[9] idem