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16 de fevereiro de 2021

Vitória na literatura de Renato Pacheco: sobre "Reino não conquistado"

 


Matutando dia desses me dei conta de que a primeira vez que vi Renato Pacheco pessoalmente estava com o meu pai. Não me lembro ao certo onde foi, mas provavelmente na Livraria Logos da Nestor Gomes, onde meu pai tinha conta. Lembra-me que, no meio da conversa que os entretinha, meu pai apontou para mim e disse: “Renato, Getúlio é seu leitor”. Era fato; acompanhava nas páginas de um dos diários vitorienses uma publicação seriada de Renato Pacheco. Que só tempos depois desse fato é que consegui identificar: tratava-se de Reino não conquistado, publicado entre 1981 e 1982 na forma de folhetim no jornal A Tribuna. Dado o meu interesse, meu pai separava os textos e guardava para mim. Posteriormente, quando da publicação em forma de livro, corria o ano de 1984 e já não me encontrava em Vitória, tinha ido estudar no Rio de Janeiro. Dezesseis anos depois, em 1997, adentrava eu o Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo pelas mãos de Renato Pacheco. Mas não é de reminiscências que tratarei aqui.

Reino não conquistado é o terceiro romance de Renato Pacheco, publicado exatos vinte anos após a sua estreia no gênero, que se dera com A oferta e o altar (1964). Quinze anos depois publicaria um terceiro romance “geográfico” – chamo assim à sua ficção urdida em torno de uma cidade, uma localidade, como personagem condutora da trama – Pedra Menina (1999), e assim contemplando de norte a sul o Espírito Santo na sua produção literária.

Para melhor apreender esse viés interpretativo da prosa de ficção de Renato Pacheco necessário se ter em conta o projeto literário que o autor traçou para si, conforme entrevista publicada na revista Você, n.º 50: “Eu assumi, há 50 anos, o compromisso de escrever sobre o Espírito Santo, sentindo a falta que havia aqui de escritores que procurassem fazer trabalhos de ficção mais profundos e abrangentes sobre a nossa terra”.

Mas se as localidades de Ponta d’Areia, a nordeste, lugar da ação de A Oferta e o Altar, e Pedra Menina, ao sul, lugar de ação do romance homônimo, são localidades imaginadas (portanto menos que imaginárias, pois se passam em lugares reais, “rearranjados” pela imaginação do autor), Reino não conquistado se passa explicitamente em Vitória. Renato Pacheco viveu em Vitória, onde nasceu, quase toda a vida, à exceção dos quase dois anos em que esteve em São Paulo para estudos e os quase dezessete anos em que percorreu o Espírito Santo como juiz de direito.

É fácil constatar que as localidades por que passava, vida e ocorrências locais, atiçavam-lhe a escrita. E não só a ficcional: produziu artigos jurídicos, da área da Sociologia Jurídica, como resultado da sua passagem ao menos por São Mateus, Colatina e Santa Leopoldina (onde se desenrola a trama do romance Fuga de Canaan (1981), espécie de continuação do romance de Graça Aranha). Sendo assim, não é de estranhar que Reino não conquistado, ambientado na cidade que o viu nascer e onde viveu, se revele o mais autobiográfico de todos. Aliás, confessadamente autobiográfico: em entrevista sobre sua obra para o livro Nomes para viagem (2002) o autor revela sobre o romance de que nos ocupamos que “a parte de 1942 pra frente tem muito de minha vivência, mas é minha, a minha visão da Vitória do meu tempo”.

Como não poderia ser diferente, Vitória tem significado especial na sua obra. De fato, desafiou os labores tanto do historiador, externados em Os dias antigos (1998), uma visão da cidade na era Vargas, como os do ficcionista, na obra enfocada.

Reino não conquistado se trata de romance em três partes que conta a história de uma família vitoriense em três tempos distintos: desde o navegador inglês vindo pesquisar a navegação no Rio Doce, à sua filha, educada na Inglaterra e retornada a Vitória, até à terceira parte, chamada pelo autor “Folhas ao vento”, onde a narrativa se inicia em 1941. Essa última é a parte em que o autor nos proporciona a sua visão da sua terra - impressão bioficcional útil ao historiador e agradável ao literato -, falando pelas palavras de Guilherme Pimentel Pereira, o narrador. Até que ponto o que se passa na trama é “o relato de algo que não aconteceu, feito por alguém que não estava lá”, da citação “anônima” que introduz essa parte do romance, cabe ao leitor julgar.  Afinal, esse jogo ficção x realidade permeia em maior ou menor grau toda a prosa ficcional do autor, sem dúvida perpassando os romances a que chamei “geográficos” como verdadeira matéria prima de elaboração.

Depois de percorrer a trabalho de norte a sul a terra cujos fatos pretendeu registrar na sua escrita, Renato Pacheco, em meados da carreira literária e já de volta à cidade natal, dispõe-se então a contar uma história de Vitória. Se alguém já disse (e se não disse digo eu agora) que a obra de Renato Pacheco se nos revela um preito de amor à sua terra, Reino não conquistado será talvez o mais bem elaborado encontro do historiador com o ficcionista, interesses confessos e vertentes marcantes na escrita do autor.   

(publicado em Escritos de Vitória n.º 35 - Escritores e obras literárias de Vitória)

26 de dezembro de 2019

Breves reflexões aeroportuárias


Antigamente quem viesse a Vitória pelo ar pousava na água, no cais do hidroavião, em Santo Antônio. Consta que até Saint-Exupéry o fez. Mas esta maneira que hoje se pode considerar bucólica de chegar durou pouco tempo: com o fim da Segunda Guerra os hidroaviões se tornaram obsoletos para transporte de passageiros. Sobreviveram muitos anos em operação na Amazônia, onde os Catalina em alguns lugares continuaram representando a única maneira de chegar.
Não era o caso de Vitória, onde havia necessidade de expandir a operação de voos comerciais. O local do campo de pouso foi escolhido por um engenheiro de uma empresa francesa no local onde desde a década de 30 funcionava o aeroclube da cidade. Integrando a lista de aeroportos que entraram no convênio firmado entre os governos brasileiro e norte-americano para cessão de aeródromos durante a Segunda Guerra Mundial, o projeto foi elaborado pelo Exército americano e executado pelo Ministério da Aeronáutica. Inaugurado em 1946, encampado pela Infraero em 1975, só em 2006 o Aeroporto de Vitória recebeu denominação oficial: Aeroporto Eurico de Aguiar Sales.
Vitoriense da gema, político e advogado, Eurico Sales (1910 – 1959) foi secretário de estado no Espírito Santo e ministro de estado no governo Juscelino Kubitscheck. Especialista em Direito Comercial, foi professor da Faculdade de Direito do Espírito Santo. Há um busto seu, em tamanho mínimo, num recanto do novo aeroporto, inaugurado recentemente e que realocou Vitória na rede aeroportuária brasileira. Ano passado propôs-se projeto de lei para mudar o nome do aeroporto para Augusto Ruschi.
Particularmente nada contra o naturalista, pelo contrário. Acadêmico da Academia Espírito-santense de Letras (segundo ocupante da cadeira 25), estudioso e militante, Ruschi é merecedor de qualquer homenagem que se lhe possa fazer. Mas sem dúvida essa proposta de alteração da denominação do aeroporto demonstra como a fama é volátil.
A fama nada mais é que a repetição do nome. Mas o que é válido, o que é relevante, para uma geração, não o será necessariamente para a próxima. Isto se dá em todos os campos da atividade humana, e os escritores sabemos bem disso. Para que a fama permaneça, devem a personagem e a obra resistir à releitura que lhes fazem uma geração após outra. Para tanto, é necessário que a figura e a obra sejam relembradas, ou não estejam esquecidas: senão em evidência, ao menos dela cuidem os ciosos pela memória ou os que influem na formação da opinião pública. A reflexão, então, é: será justo que pouco se saiba sobre um proeminente homem público do Espírito Santo como foi Eurico Sales? Convenhamos, nem tão pródigo assim é o Espírito Santo em matéria de Ministros de Estado...
Fato é que, já há algum tempo, o padrão “homem público” pouco diz ao público, a não ser em termos financeiros (visando à transparência, o salário consta logo após a menção do cargo em matérias de jornal). Importam ao público as realizações em outros campos, o que é normal que aconteça, ao sabor das flutuações da opinião pública. Em defesa de Eurico Sales, lembremos ter sido secretário de estado exatamente da Educação e Cultura, o que pode tornar mais palatável o seu perfil aos dias de hoje.
Talvez se possa resolver a questão dando o nome de um ao terminal de passageiros, do outro ao terminal de cargas. Não sei, trata-se de negócio público, dos afazeres de homens públicos. Para não destoar dos tempos que correm deve-se proceder à crítica sem necessariamente conhecer o assunto, já que a liberdade de expressão é sagrada e as redes sociais aí estão para isso mesmo.
Uma segunda reflexão diz respeito à interessante origem do aeroporto: como dito acima, deve-se a escolha do local a engenheiro francês, o projeto a engenheiros norte-americanos. Ambas as nações envolvidas nos primórdios da atividade aérea, não tivesse o voo tido por pioneiro de Alberto Santos Dumont acontecido na capital francesa, desafiando a fama do voo que na América fizeram os norte-americanos irmãos Wright.
Trata-se de discussão para muito mais de metro. Da qual, frequentador de redes sociais que sou, prefiro apegar-me a faceta secundária, que é a prática de qualificar Santos Dumont como “franco-brasileiro”. Creio que se assim fosse, a máquina de propaganda francesa já teria entrado na disputa pela hegemonia dos primórdios da aviação. Claro, fosse eu especialista, saberia que, na França, consta que Clement Ader já havia voado num mais-pesado-que-o-ar, em segredo militar, desde 1890... mais lenha na fogueira.  
Recorda-me uma vez ter passado a noite no Aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro, esperando a chegada do meu filho Miguel, que se daria por volta das cinco horas da manhã. O primeiro voo de Vitória chegaria lá depois do horário do desembarque e o miúdo teria de ser entregue a alguém na chegada. Um aborrecimento no dia, mas que, hoje vejo, me credencia como especialista para falar de aeroportos. Ao menos em redes sociais, para onde, com a permissão do destinatário original, pretendo remeter esta breve reflexão. 

(publicado no Escritos de Vitória, n.º  34: Aeroportos)

5 de outubro de 2019

Conviver aos sábados



Sábado traz consigo aquele jeitão de melhor dia da semana. Relaxa-se da correria dos dias de trabalho e de quebra tem-se pela frente o domingo, um descanso de eventuais excessos praticados no dia livre.
Sábados foram por muitos anos o dia quase-sacro dos encontros na extinta Livraria Logos, na Praia do Suá. Iam todos para lá, e se fosse o caso se acomodavam à volta da minúscula mesa. Que passava a epicentro da reunião, de onde “irradiavam” todos pelos recantos e prateleiras de livros. Tudo à volta do “Recanto Renato Pacheco”, na parte de trás da loja, assim batizado em honra ao frequentador que pôs nome nos tais encontros – Sabalogos.
Foram quase vinte e cinco anos, sábado após sábado, no mesmo horário, no mesmo local. Ia-se quando se podia, mas a maioria dava jeito de poder sempre. Houve, sim, ausências ao longo do tempo. Uns se mudaram, outros nos faltaram. E dada altura faltou o local, e mudou-se o local. E houve mais ausências, daquelas definitivas, e outros afazeres foram absorvendo aos poucos.
Dali muitas vezes saía-se para o almoço. E eram sempre excursões gastronômicas, porque havia connoisseurs de tudo: de vinho a massa, de cerveja a bacalhau, de quindins a doce de leite. Era trabalhoso o processo de seleção do local aonde iríamos: rodadas de votações, reiniciadas sempre que chegava retardatário disposto a ir também. De alguns desses repastos lavrou-se ata, que estão pela internet.
Vez em quando o Facebook lembra alguma postagem - são fotos e fotos internet afora. Vez ou outra quem saía antes do registro reclamava ao vê-lo (o registro, não a sua pessoa) postado em rede social. Se tinha saído pra ir lá, como explicar em casa a ausência? Toilette, claro, sugeriam. E assim qualquer atitude se recriminava, postasse-se a foto, não se postasse a foto. Era parte da graça.
Sábado continua a ser dia de encontro. Toma-se um café, joga-se ao vento um ou dois dedos de prosa. Já não há é aquela obrigação, vinda da sensação de que a perda dos momentos de convívio fosse prejudicial à saúde mental do ausente. E à paz de espírito, se acaso guindado ao posto pouco lisonjeiro de assunto do dia.
O que importa é a convivência. A ocupação de conversar. Robert Louis Stevenson, autor de muita coisa além da Ilha do Tesouro, alerta no seu A conversa e os conversadores (in Apologia do ócio e A conversa e os conversadores. 2.ª ed. Trad. Rogério Casanova. Lisboa: Antígona, 2018) para o fato de que “não existe ambição mais razoável que a de nos notabilizarmos na arte da boa conversa; sermos afáveis, bem-humorados, rápidos, lúcidos e generosos; possuirmos um facto ou pensamento adequado para ilustrar qualquer assunto”. Convívio, vê-se, é ao mesmo tempo lazer e exercício mental.  
    Se são outras as circunstâncias, o espírito é o mesmo. Tome-se um café, em qualquer lugar que seja, fale-se sobre tudo um pouco e Literatura também, estará honrado o compromisso, estarão lembrados os velhos tempos. Afinal, é sábado, dia de café com prosa, a fazer hora pro almoço.  

6 de fevereiro de 2011

UMA CIDADE-ILHAS



Vitória é uma das três capitais brasileiras situada numa ilha, não é novidade. Mas embora Vitória seja uma cidade-ilha, o município de Vitória não ocupa só uma ilha, mas um arquipélago: os pouco mais de 93 quilômetros quadrados de área municipal se estendem, na verdade, por trinta e quatro ilhas, ilhotas e formações rochosas, além de áreas localizadas no continente. Mesmo que não se cuide, aqui, de uma aula de geografia, declinamos os nomes das ilhas e ilhotas que compõem o arquipélago, por amor à curiosidade e como introdução à nossa digressão: Ilha de Vitória, Ilha da Pólvora, Ilha do Cal, Pedra dos Ovos, Ilha das Pombas, Ilha do Urubu, Ilha das Tendas, Ilha das Cobras, Ilha Maria Catoré, Pedra da Baleia, Ilha dos Práticos, Ilha dos Itaitis, Ilha dos Igarapés, Ilha Galheta de Dentro, Ilha Galheta de Fora, Ilha das Andorinhas, Ilha Rasa, Ilha do Fato, Ilha dos Índios, Ilha do Socó, Ilha do Frade, Ilha do Chrisógono (Santa Cruz), Ilha do Paraíso, Ilha da Baleia (Cavalo), Ilha do Meio, Ilha do Campinho, Ilha do Apicum (Lameirão), Ilha Guruçá, Ilha Margarida, Ilha Solteira, Ilha Grande (Delta do Rio Santa Maria), Ilha de Trindade, Arquipélago Martin Vaz, Ilha da Fumaça. Encontram-se já integradas à ilha principal, onde se localiza a cidade de Vitória: Ilha de Santa Maria, Ilha de Monte Belo, Ilha do Boi, Ilha do Papagaio, Ilha do Sururu, Ilha do Príncipe, Ilha do Bode, Ilha da Rainha, Ilha da Palha (Madeira), Ilha das Caieiras, Ilha do Caju, Ilha Wetzel, Ilha Rabello, Ilha do Cercado, Ilha da Forca, Ilha Cinzenta, Ilha Gonçalves Martins.

Embora a média do cidadão vitoriense possa, com alguma razão, não saber localizar cada uma delas no mapa, os pescadores, os velejadores, os marinheiros, os práticos, da capital o sabem, ao menos grande parte delas. E alguém menos amigo desta coisa de curiosidades há de perguntar – e daí?

Como não tenho resposta para essa pergunta, abandonemos desde logo essa linha de exposição e permita-me chamar sua atenção, caro leitor, para o fato de que me referi, acima, a “ilha principal”. Que não se chama, originalmente (isto depois da Ilha do Mel dos índios) Ilha de Vitória, mas Ilha de Santo Antônio, de Santo Antônio de Lisboa, o santo guerreiro que, nascido em Lisboa, viveu a maior parte de sua vida pública em Padova, na Itália. E interveio, em favor de Portugal, na Batalha de Aljubarrota, em agosto de 1385, quando o reino português rechaçou mais uma tentativa castelhana de sua anexação. Justamente por lograr fama de guerreiro, na conta dessa intervenção sobrenatural e vitoriosa, Santo Antônio sentou praça em várias localidades do reino, e na Companhia de Infantaria paga de Vitória foi matriculado em fevereiro de 1752, vencendo soldo de soldado raso, conforme documento colecionado por José Teixeira de Oliveira em seu História do Estado do Espírito Santo.

Aliás, a tradição dos santos guerreiros era cultuada na antiga Ilha de Santo Antônio, e outro exemplo é a consagração a Santiago - o discípulo de Jesus que foi ter à costa ocidental da Europa, na Galiza - da igreja dos Jesuítas, na Cidade Alta. Santiago era santo de especial devoção dos castelhanos envolvidos na guerra santa contra os árabes, que ocuparam por oito séculos a Península Ibérica. Rezavam eles ao “matamoros”, invocação mais famosa do santo. Sua devoção veio transportada para a América nas embarcações dos conquistadores de territórios aos indígenas, estes últimos muito menos ingênuos e pobrezitos que se os costuma pintar hoje em dia.

Mas o exemplo derradeiro em abono àquela afirmação acima é a consagração do templo principal da então Vila a Nossa Senhora da Vitória, cuja invocação, na época, nada tinha que ver com a vitória do fiel sobre as provações e as vicissitudes em sua vida, mas sim com a vitória militar, nos campos de batalha, que a tradição aponta ter havido aqui dos colonizadores sobre os indígenas. Lembra-me agora o Cristo das Batalhas, cultuado ainda hoje numa capela da Catedral Nova de Salamanca, a primeira cidade universitária espanhola. A fé ibérica é, afinal, melancólica e guerreira.

Permita-me, agora, chamar sua atenção para outros dois nomes que declinei inicialmente naquela lista de acidentes geográficos integrados à nossa Ilha e, consequentemente, ao município de Vitória: a Ilha da Trindade e o Arquipélago de Martim Vaz, tão ao largo, oceano adentro. Firmemos um pouco mais nossa atenção nessa formação: Trindade fica a 1.200 km, em linha reta, de Vitória, e constitui a parte mais ocidental do território brasileiro. Com o tempo claro, dizem os navegadores, vê-se, a 48 km de distância de Trindade, a Ilha de Martim Vaz. Os pouco mais de dez quilômetros quadrados do arquipélago são desabitados, à exceção de uma guarnição da Marinha do Brasil, que da Ilha da Trindade administra a área, depois que o Supremo Tribunal Federal concedeu liminar em Ação Direta de Inconstitucionalidade (n.º 190) para retirar expressões do art. 2.º da Constituição do Estado do Espírito Santo de 1989, que considerava o arquipélago como território do Estado. Em virtude dessa decisão judicial, a nova redação dada ao art. 2.º da Constituição estadual pela EC 14/98 não refere expressamente as ilhas, ficando tudo agora por conta da tradição.

As ilhas já foram ocupadas brevemente pelo Reino Unido, por motivos que remetem a cabos telegráficos; os britânicos, no entanto, se retiraram em 1896, na esteira de negociações com o Brasil intermediadas por Portugal. Sobre essa ocupação, texto da intervenção de Manoel Francisco Correia em sessão do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro pode-se ler no número de 1897 da Revista daquela Casa. E se quiser saber mais a respeito daquele impressionante pedaço de terra perdido no meio do oceano, que tem o ponto culminante do município, o Pico do Desejado, com seiscentos e um metros de altitude, consulte Trindade, Ilha Misteriosa do Trópico, do navegador Emérico Samassa Mayer, escrito no rescaldo do Ano Geofísico Internacional de 1957, o ano da instalação da base científica no local. Tão impressionante, tão misteriosa, que inspirou ao falecido Acadêmico Adelpho Monjardim a criação do romance Tesouro da Ilha da Trindade, ambientado na ilha, cujo fantasma meu pai sempre se lembrava de suas leituras juvenis.

A Ilha de Trindade já serviu de presídio político, abrigando os derrotados do episódio dos Dezoito do Forte de Copacabana: Eduardo Gomes e Juarez Távora por lá estiveram de 1922 a 1926 quando, com a posse de Washington Luis, aos prisioneiros foi concedida liberdade condicional. Aliás, num parênteses, relembre-se que Vitória já serviu de presídio a outro prisioneiro famoso, em outro episódio famoso na historiografia brasileira: como se sabe, o senador padre Diogo Antônio Feijó esteve recolhido à Cadeia Pública de Vitória, após a Revolução de 1842.

Não é sem propósito: a imagem de uma ilha remete a prisão, porque lembra isolamento (lembremos, por exemplo, de Edmond Dantés, o Conde de Monte Cristo). Para evitar esse isolamento quase inerente à sua condição de ilha é que a de Santo Antônio, onde se localiza Vitória, foi incorporando aquelas outras mencionadas acima, a exemplo da Ilha do Príncipe, acessível inicialmente por meio da hoje Ponte Seca. E também que à cidade já foram dadas seis pontes que a ligassem ao continente. A primeira, cronologicamente falando, é a ponte Florentino Avidos, conhecida como Cinco Pontes, toda fabricada na Alemanha, em aço Krupi, e que foi inaugurada em 1928. A Segunda Ponte, de 1979, trouxe o tráfego continental de Vila Velha e Cariacica para Vitória. A terceira, a ponte Deputado Darcy Castelo de Mendonça, é mesmo chamada pelo povo de Terceira Ponte, e consta ser a maior obra de engenharia já realizada no Espírito Santo, concluída em 1989. Há, ainda, a Ponte da Passagem, ao norte, que vem sendo modernizada com o objetivo de se tornar um novo cartão postal da cidade, a exemplo da Basílica de Santo Antônio; a Ponte Ayrton Senna e a Ponte de Camburi – esta, aliás, a única praia localizada na área continental da cidade e a maior em extensão, com aproximadamente seis quilômetros.

Mencionem-se, para não parecer falho ou falto de informação, mais duas ilhas habitadas: a do Boi, ligada à ilha principal por aterros, e a do Frade, local onde ainda existem casas e sobrados, numa região bastante central da cidade.

Mas essa geografia entrecortada, espremida a cidade entre o mar e o maciço central, a Fonte Grande, e que continua sendo representada pelos geógrafos como um entrave ao desenvolvimento, não augurava, a princípio, o progresso que Vitória apresenta hoje. Inglês de Souza, presidente da Província do Espírito Santo em 1882, e que seria, quinze anos mais tarde, o primeiro tesoureiro da Academia Brasileira de Letras, sugeriu, no seu relatório de governo, a transferência da capital para um ponto central do nosso território, ligando este ponto a Vitória por meio de vias férreas, e permanecendo a cidade como entreposto comercial. Para tanto, dava duas razões, que cada um poderá julgar, mas utilizando-se dos parâmetros daqueles 1882: a situação geográfica da capital, “situada na encosta de uma montanha, apertada pelo mar em uma estreita língua de terra” e também suas condições de salubridade, já que “muito brevemente, e segundo o parecer dos entendidos, a água há de faltar para o abastecimento da população, principalmente na estação calmosa, ou pelo menos se há de reduzir irreparavelmente a quantidade suficiente para o consumo de uma população ligeiramente aumentada”. Se interessar, consulte na Revista da Academia Espírito-santense de Letras, edição de 2007, “O Acadêmico Inglês de Souza e a Presidência da Província do Espírito Santo”, deste que vos escreve.

Quanto à situação geográfica, o município expandiu-se pela região continental e quanto à salubridade, em nome do saneamento a cidade vem sendo perfurada em todos seus quadrantes neste último ano, transtornando o trânsito já semi-caótico pelas “humanizações” das vias públicas, esquecidos os planejadores e humanizadores que automóvel atualmente está muito longe de ser artigo de luxo, utilizado pelas elites etc, antes é um dos principais pontos de apoio da política pública atualmente no poder em Brasília. O aumento exponencial do tráfego de veículos comprados com redução de tributos é inevitável, ao menos até a próxima eleição presidencial, e já que não teremos o metrô de superfície.

Se o tráfego urbano está semi-caótico, e a tendência humanizadora com certeza acabará certo ou tarde eliminando este “semi”, o tráfego comercial desde sempre manteve a cidade. Se é fato que a agricultura, e a certa altura a indústria, mantiveram a economia da cidade em períodos distintos de sua história, Vitória foi sempre um entreposto comercial, e hoje conta com dois portos que estão entre os mais modernos e eficientes do país: o porto de Vitória e o porto de Tubarão, que atualmente simbolizam a tradição mercantil da cidade.

Um dos núcleos iniciais de colonização da Capitania, defendida tantas vezes de invasões - por Mem de Sá, contra os goitacazes que a sitiavam, pelo padre Brás Lourenço e por Maria Ortiz, contra invasores estrangeiros que a quiseram saquear -, é fato que a cidade jamais foi invadida. Mas se abriu, ao longo dos séculos, aos visitantes, como o entreposto comercial e a cidade cosmopolita que veio sendo construída lentamente. O falecido Acadêmico Levy Rocha historiou a presença em Vitória dos mais famosos viajantes estrangeiros, entre eles Biard, Saint-Hilaire, Hart, Teresa da Baviera, em seu Viajantes Estrangeiros no Espírito Santo. E também a visita do Imperador Pedro II, em 1860, em Viagem de Pedro II ao Espírito Santo.

Capital dos espírito-santenses, Vitória foi o porto de entrada dos imigrantes europeus que vieram refazer o Espírito Santo, e daqui se espalharam por todo a terra capixaba. Aliás, o gentílico que designa os filhos da terra quem lhes deu foi Vitória: capixaba, originalmente local de plantio, passou a designar indistintamente as roças de milho que se faziam na ilha, e daí aos próprios plantadores e roceiros. Se o interessar, procure ler, do falecido Acadêmico Guilherme Santos Neves, “Por que somos Capixabas”; procure-o pela internet, ou no Coletânea de Estudos e Registros do Folclore Capixaba: 1944-1982, lançado ano passado com o patrocínio da Petrobrás. Ali poderá também se inteirar da tradição das águas da antiga Fonte da Capixaba, que os habitantes da ilha diziam trazer fortuna e felicidade na vida aos recém-nascidos que nelas tomassem seu primeiro banho, o que em muito deve ter contribuído para a propagação do gentílico.

Mas se empresta suas tradições a todo espírito-santense, Vitória também recebe dos entornos um patrimônio que já lhe está sentimentalmente integrado. Exemplo principal é o Convento da Penha, que por séculos atesta a fé do povo espírito-santense e lá do alto do penhasco guarda a entrada da Baía de Vitória, o antigo Rio do Espírito Santo. Baía de Vitória cujo símbolo principal é o Penedo, colosso de pedra de cento e trinta e seis metros de altura situado no território de Vila Velha mas que, fronteiro à entrada da antiga cidade, sustinha do lado de lá as correntes que se estendiam no braço de mar, obrigando as embarcações hostis a se deter em frente à artilharia do Forte de São João.

Esta relação entre ambos, a ilha e o rochedo, é inconsútil, ao menos para mim. É que cresci ouvindo as lendas e histórias de minha avó Doralice de Oliveira Neves, também acadêmica, da sexagenária Academia Feminina Espírito-santense de Letras. Meio como que o avô das Histórias de um Avô Carioca, de Judith Freitas de Almeida Mello, minha avó me dava explicações, à altura satisfatórias, para tudo o que eu não conhecia da terra que adotou, eu que fui criado pelos lados do Rio Doce.

Lembra-me agora a história de Guananira, a princesa índia que veio do norte e se apaixonou pelo gigante guardião da baía. Já não me lembro se a ciou para mim ou não, ela que muitas vezes inventou versões na hora, para me divertir. Se for do seu agrado, leitor, terminemos estas digressões com essa história da minha avó, que evoca Penedo, o colosso de pedra que é o símbolo maior da cidade-ilha, e dá uma explicação lendária para o nome por que passou a ser conhecida a ilha e por conseqüência a cidade:
“Lá no norte, disse-me a voz, vivem nas águas do Rio-Mar umas flores gigantes, que foram lindas princesas das nossas selvas, que, não podendo ser estrelas, transformaram-se em flores...

- As Vitória-Régias? Perguntei.

- Sim, as Vitória-Régias, confirmou a voz, sem se interromper.

... “Entre elas, vivia a Princesa Guananira, linda como as suas irmãs. Seu maior prazer era assistir à luta do rio contra as ondas dominadoras do mar. Com que alegria ela olhava a massa volumosa e descomunal das águas do rio investirem furiosas contra as águas do oceano, espalhando pelo mar o rugido das pororocas!

Um dia, a batalha era tremenda e a princesa flor foi contemplá-la de perto. De repente, uma daquelas colossais ondas, que se confundia entre as águas do Atlântico, pegou Guananira e a levou no seu dorso para bem longe das águas nordestinas...

Depois de muito navegar, a curiosa Princesa foi levada para uma formosa baía, guardada por um poderoso gigante, chamado Penedo.

Era a hora mística do crepúsculo da tarde!... um profundo silêncio caía sobre as coisas e a fragrância divina envolvia a terra!... o gigante, como que narcotizado, caiu em profundo sono.

Guananira, ali jogada pelas ondas e embalada pelos ventos, adormeceu...

Quando Guaraci apareceu, lá no reino de Tupã, para acender a lâmpada poderosa e iluminar o dia, Penedo despertou. Vendo a Princesa Flor, apaixonou-se pela sua beleza e não mais deixou que as ondas entrassem na baía, para não levarem-na para o mar...

Quando, por castigo de Tupã, o gigante foi transformado num monstro de pedra, a formosa Guananira foi transformada numa ilha, para ficar junto de seu amado.

Mais tarde, voltaram os brancos. Houve a luta de disputa. Vencidos os guerreiros dos Goitacases, Guananira recebeu o nome de Vitória, que lembra o de suas irmãs que ainda reinam nas águas do Rio-Mar.”

(publicado no "Escritos de Vitória" n.º 26, Vitória, Cidade Ilha, Vitória, 2009, p. 37-43) 


5 de fevereiro de 2011

VITÓRIA CIDADE SOL. E MAR, PORTO, ILHA, PRESÉPIO...


Já alguma vez lhe aconteceu de cogitar, leitor, que é que poderá sentir um possível viajante imaginário vindo primeira vez a Vitória? Ocorreu-me isto agora ao lembrar que uma vez presenciei, num vôo que aterrava e que por acaso me trazia de volta para casa, o “cicerone” capixaba de um súdito inglês, sentados ambos lado a lado, esclarecer a este que não, o nome da nossa cidade não tinha a ver com a Rainha Vitória deles, mas se devia a uma “portuguese victory against indians”, o que é extremamente correto do ponto de vista da tradição.

De fato, é da História que Vasco Fernandes voltara às pressas do reino, nos idos de 1547 ou 1548, ao saber das novas da destruição dos engenhos que aqui deixara produzindo a todo vapor – ou, antes, a todo melado - e quase sem nenhuns recursos materiais nem humanos (que os que não foram mortos na sua ausência se passaram para a vizinha Porto Seguro) acabou, na seqüência, por fundar Vitória. Quer dizer, passando-se para a humilde povoação de colonos já existente na ilha de Duarte Lemos, por ocasião de uma daquelas intermináveis escaramuças contra os goitacazes, que se iam aos poucos novamente assenhoreado dos entornos deles retirados desde a chegada da “Grória” ao pé do Morro da Penha, na Vila Velha.

Se a tradição guarda a data de 8 de setembro de 1551 como da fundação da povoação, numa vitória espetacular dos colonos contra os indígenas que se coroou no local mesmo da edificação da Igreja, por seu turno a historiografia registra documento daqui mesmo datado do ano da Graça de 1550. A propósito, uma provisão do provedor-mor nestas partes do Brasil, vindo com o primeiro governador-geral, mandando pagar os emolumentos de direito ao clérigo de missa da Vila.

O fato é que a tradição fala muito mais ao coração do povo, que prefere referir-se a Rômulo e Remo amamentados pela loba no episódio da fundação de Roma. E das éguas velocíssimas que se emprenhavam pelo vento, lá da região aonde Ulisses foi buscar Aquiles para o conduzir ao teatro da Guerra de Tróia, e passando por isto o povo a se referir ao lugar como Ulissipo, Olissipone, Lissabone, Lisbone... Nossa vitória contra os índios, da mesma forma, é incontestável, mesmo para um súdito britânico, que aliás teve aqui mesmo, nesta baía, fragorosamente batido pela população armada da terra de Nossa Senhora da Vitória uma das flores do corso inglês, o capitão Thomas Cavendish.

Provavelmente o nosso viajante imaginário que desceu da aeronave comigo ignorará logo à chegada os fatos destacados da fundação e dos primeiros tempos da Vila de Nossa Senhora da Vitória. Mas sem dúvida se verá inundado de sol e do calor viscoso da cidade que lhe abre os braços para o receber, assim que acabar de descer as escadas de bordo. Se tiver sorte, poderá mesmo ouvir, dos alto-falantes do nosso defasadíssimo campo de pouso, a festejar-lhe a chegada, os versos imortais de Pedro Caetano, dos mais notórios entre os inúmeros outros paulistas, goianos, cariocas, pernambucanos, alagoanos, mineiros - que se encantaram pela terra inundada de luz:


“Cidade Sol, com o céu sempre azul
Tu és um sonho de luz norte a sul
Meu coração te namora e te quer
Tu és Vitória um sorriso de mulher...”
Que as cidades, amigo, são como as mulheres: cada uma nos agrada de um jeito diferente, e no que uma me atrai a mim, você ou outro pode não pôr nisto a menor atenção. É corrente, imagem poética batida, que a cidade - terra, lugar de origem -, tem paralelo com a mulher, que gera, que origina. Mas, e prossegue o bom poeta, para gerar a mulher tem, antes, de seduzir. A sedução que vem de uma e outra é, assim, semelhante: sorriem, atraem-nos, e assim ficamos. E só.

O sorriso da mulher que seduz é radioso, e o de Vitória também é, ou o nosso poeta, que de fato era dos bons, não a compararia ao sorriso de mulher nenhuma. Porque o sol aqui, nesta terra à beira-mar plantada, é constante, e a cidade toda ela irradia de cara num sorriso aberto, luminoso.

A bem da verdade, leitor amigo, como sabemos este sorriso é quase constante: já se disse também que em Vitória há verão e vento sul. E a propósito, este vento sul, que nos traz a chuva, já foi antigamente infalível quando à cidade chegava um circo, sabia disto? Ou seja, a molecada corria era na chuva para ver os animais, que circo chegando a cidade sem molecada correndo em volta, seja aqui ou em qualquer outro lugar do mundo civilizado (e que por isto mesmo tenha circo) é algo que não se concebe.

Ilha. Antiga Ilha do Mel dos tupiniquins. Antes de mais nada, - será mesmo aqui a Cidadilha de Luis Guilherme Santos Neves? Ladeiras, cais e igrejas tanto Vitória quanto a cidade fantástica do romancista têm de sobra. Mas a propósito dessa indagação diz o autor que cabe a cada um descobrir, e assim que fique cada um com suas cogitações, depois de lê-lo. Guananira, princesa índia que aqui aportou, vinda do norte, do Rio-mar, e aqui seduziu Penedo, que por ela se apaixonou - conforme me contava em pequeno minha avó Doralice de Oliveira Neves. Transformados, ele em colosso de pedra, para sempre velá-la, ela na bela ilha, para estar sempre ao pé dele. Muito depois - seguia a narradora - aqui aportou a primeira mãe capixaba, de fado semelhante ao de Iracema, dos lábios de mel. Vinha no propósito de salvar a filha, a dos cabelos semelhantes à espiga do milho, da vingança dos seus...

O mar é uma constante no imaginário da cidade. Cidade-porto, local seguro, como o fora para a mãe índia escorraçada, da lenda de minha avó. A cidade vive voltada para o porto, como vivera outrora à volta de seus inúmeros cais, onde aportavam pescadores e comerciantes. A pesca é atividade recorrente, o capixaba era sobretudo o comedor de marisco, de peixe com pirão de farinha da mandioca. Isto até se ver invadido de volta, com suas tropas de burro, pelos mineiros, esses antigos capixabas que mandáramos há séculos para o lado de lá da Serra dos Aimorés, atrás de ouro. Na volta, isto é, descendo de volta para o litoral, foram eles povoando os sertões que sobraram dos imigrantes europeus e tornando vulgares os pratos à base de carne de gado, que hoje integram também nossa culinária local.

Cidade portuária por excelência, Vitória inspirou inúmeros cantos que disso davam conta. O Padre Marcelino Duarte, poeta capixaba, patrono da cadeira n.º 1 da Academia Espírito-Santense de Letras, caído em desgraça junto ao governador Rubim, despede-se de sua terra no seu Derrota de uma Viagem ao Rio de Janeiro em 1817:

Adeus, Vitória! Digo então comigo,
Sultana que sobr’ o mar o colo inclina!
O mesmo poeta, ao retornar à pátria muitos anos depois, tem daqui a seguinte impressão:

Surgindo da flor d’água lentamente
Vai a linda cidade de Vitória.
Que vista pitoresca!
Um montão de edifícios
Cobre a rasa colina!
Já num prenúncio, talvez, da “cidade-presépio”, de Adolfo Fraga, “pequenina e tão cheinha que é”... Ou já foi. A cidade cresceu, os problemas aumentaram, entre eles a criminalidade. Saiba, leitor, que com relação a crimes Vitória já teve também o seu Sherlock, o famoso detetive Machuca, elemento das relações do Acadêmico Adelpho Monjardim, ex-prefeito da cidade, que começou a narrar as proezas investigativas do nosso policial na sua coleção de “Contos Fantásticos”.

Sol. Luz. Mar. Mas uma cidade que se preza não se faz sem seus mistérios, como as assombrações do Recife velho, resgatadas lá por Gilberto Freyre. A propósito, que se conta em Vitória hoje em dia dos subterrâneos sombrios da Igreja de São Tiago, por onde os jesuítas ameaçados tinham fuga, notadamente para os lados do antigo Porto dos Padres? Por onde teriam ficado as riquezas todas que não puderam carregar com eles quando foram expulsos do Brasil, e portanto de suas propriedades em Vitória? Que se conta em Vitória hoje em dia dos estranhos tesouros escondidos numa ou noutra das sombrias grutas em forma de olhos da Pedra dos Olhos, que vigia a ilha de cima? Ou mesmo do tesouro em prata da catedral de Lima, enterrada por corsários ingleses na Ilha da Trindade - que, embora contestado pela Marinha de Guerra, é território da cidade?

As bolas de fogo que desciam da Fonte Grande nunca mais foram vistas, desde o advento da luz elétrica. De Maria Guaibira, a velha feiticeira que habitava as ruínas do Forte São João e se transformava em pata, não se teve mais notícia desde que uma vez foi surpreendida em sua metamorfose maligna, como nos narrou o mesmo Adelpho Monjardim. Mas que eu saiba subsiste hoje ao menos um ser fantástico em Vitória, o Licantropo do Parque Moscoso. Corre a boca-pequena tratar-se da transmutação terrível do próprio romancista que deu notícia de suas proezas. Criatura esta aliás que, fora das noites de lua-cheia, é afável no trato e não seria capaz de beber sangue de suas vítimas, talvez por esta substância não conter álcool...

Viver, já disse o Acadêmico Marien Calixte, é ver Vitória. Assim, sem se dar conta, o nosso viajante imaginário veio até aqui vivendo entre nós, e é desejo meu, que o imaginei e vim guiando em minha argumentação, que acabe seu primeiro contato com a cidade-sol sob os raios de sol que queimam o asfalto da Praça João Clímaco, na Cidade Alta.

Dali, do alto, o viajante poderá ver o braço de mar do antigo rio do Espírito Santo, poderá ver o porto, os morros que ponteiam a geografia da ilha, dali conseguirá perceber os primeiros tempos da cidade. É, mesmo, o coração dela, que bate sob o asfalto, no muito antigo largo entre a antiga igreja de São Tiago, a de São Gonçalo, a antiga Igreja da Misericórdia e o mar, abaixo. Olhar lá para adiante, para os lados da velha Igreja Matriz, demolida e hoje remodelada na Catedral de Nossa Senhora da Vitória, mesmo ao lado do antigo Pelourinho, que também não se vê mais – outrora um símbolo do poder real, que Maria Ortiz defendeu repelindo os invasores holandeses que subiam pela ladeira, hoje escadaria com seu nome. Maria Ortiz, que não era prostituta, porque só aos ficcionistas é dado cogitar que se erguesse um prostíbulo ao lado de um símbolo máximo do poder real.

Dali, da Praça João Clímaco, coração da cidade, verá o nosso viajante que Domingos José Martins continua a velar pelos ideais dos vitorienses, e de todo capixaba. Dali, mesmo ao lado de onde José de Anchieta fez encenar seus autos, de sobre o pátio do antigo colégio, poderá o viajante perceber que irradia ainda uma outra luz, que como a do sol desce também sobre a cidade - mesmo dali, da casa de Kosciuzko Barbosa Leão, onde José de Anchieta tem assento para sempre. E onde os vates capixabas para sempre cantarão a tradição, os mistérios e as belezas da sua cidade.


(publicado no n.º 25 dos "Escritos de Vitória": Vitória, Cidade Sol, Vitória: 2008)


6 de maio de 2010

A VITÓRIA SIM, VITÓRIA NÃO

Lendo o excelente volume Crônicas do Cotidiano: A vida cultural de Pernambuco nas crônicas de Gilberto Freyre, recém-editado pela Fundação que leva o nome do Mestre de Apipucos, vejo lá o texto O Recife sim, Recife não! em que o mestre reclama da inovação de grafar o nome de sua cidade sem o artigo definido, atribuindo essa prática a um “carioquismo” que invadia a imprensa local contemporânea. O fato é que, diz ele, o recifense autêntico referia-se a sua cidade como “o Recife” (ao menos na década de 80, data do texto publicado no jornal Diario de Pernambuco).

O protesto de mestre Gilberto Freyre lembrou-me o nosso Eurípides Queiroz do Valle, desembargador do Tribunal de Justiça, membro da nossa Academia de Letras e do nosso Instituto Histórico. O autor, versado, cioso e saudoso das boas tradições capixabas, publicou crônica (posteriormente colecionada no seu Micrólogos, de 1968) datada de Abril de 1951, intitulada Cidade de Vitória em que chama a atenção para o fato de que nossa cidade sempre fora chamada, inclusive em documentos, a Vitória, e não simplesmente Vitória, o que tachou de “deturpação recente”.

Por interessante, não me furto a transcrever fielmente as palavras do ilustre cronista:

“Passará no próximo dia 8 de setembro o quarto centenário de batismo da Cidade de Vitória. O Governo e as instituições culturais do Estado se aprestam para festejá-lo condignamente. Disse centenário de batismo e disse bem. Porque o que se vai comemorar não é o nascimento, mas o batismo da cidade. Vitória já existia em 8 de Setembro de 1551. Com outro nome, é certo, mas já existia. Trazia um apelido de casa. Era denominada VILA NOVA para que não se confundisse com a Vovó, com a VILA VELHA, já existente no continente. Com a vitória definitiva dos portugueses sobre os terríveis selvagens que tanto trabalho deram aos primeiros colonizadores, a povoação passou a chamar-se Vila da Vitória. Era uma homenagem. Homenagem com que os velhos portugueses procuravam perpetuar a sua coragem e destemor. A denominação pegou. Atravessou quatro séculos e aí está. Mas está, meus amigos, um tanto deturpada. Que me perdoem os Drs. Mário Freire, Heráclito Pereira, Ceciliano Almeida, Eujenio de Assis e outros Mestres. Se a denominação foi dada para lembrar uma vitória, a cidade devia ser então CIDADE DA VITÓRIA e não Cidade de Vitória. Essa deturpação, porém, deve ser recente. Porque desde a sua elevação à Vila que ela vem sendo VILA DA VITÓRIA. Assim a denominaram em seus trabalhos os historiadores Misael Pena e Braz Rubim entre os nossos e Brito Freire e Porto Seguro, entre os estranhos. Nos documentos oficiais também. A própria carta de lei de 18 de Março de 1832 em que o Sr. D. Pedro ‘pela graça de Deus e unânime aclamação dos Póvos’ houve por bem elevar a Vila à Cidade, oficializou a expressão CIDADE DA VITÓRIA. Trata-se, portanto, de denominação consagrada pelos historiadores, pelo uso, pelos documentos oficiais e pela própria lei.

Estamos no ano em que vamos festejar o quarto centenário desse batismo. E como seria interessante volver agora à tradição e fazer com que os atos oficiais dos Poderes Públicos do Estado e a nossa própria correspondência particular começasse, desde já, a ser datada da CIDADE DA VITÓRIA! Aí, fica, meus amigos, a sugestão.”

Sugestão esta, ao que se vê diariamente, não acatada. Arcaísmo? Tema para discussões bizantinas? Cada um que julgue. Mas discuta, como instigaram ambos os mestres em seu tempo.