26 de agosto de 2026

Buscando o tesouro dos jesuítas


Entende-se por causos, em linguagem coloquial, os se-passados e acontecidos, geralmente com o narrador, mas nem sempre, geralmente transmitidos de forma oral, mas que, registrados por escrito, rendem leituras saborosas. Vide, por exemplo, os causos desfiados em seus livros por José Cândido de Carvalho (talvez mais conhecido pelo romance O coronel e o lobisomem, vá lá). Enfim, as tais narrativas, vindas do coloquial da fala e cultivadas com estilo por não poucos autores, já andam pretendendo foros de gênero literário.

 

Refletindo sobre o Edital lançado pela Academia de Letras para mais um “Escritos de Vitória” me lembrei de fato que soube há tempos e passado aqui mesmo, já lá se vão anos, que penso coincidir com o que pretendem os organizadores do volume.  Antes, advirto a eventual leitor que não será fácil pesquisar tradições antigas da cidade de Vitória, outrora pródiga em suspenses e mistérios, hoje caídos no esquecimento. Um destes mistérios, que até certa altura dava tratos à bola na imaginação do ilhéu, é o tesouro dos jesuítas. Desde a expulsão dos inacianos em 1759 até meados do século XX os vitorienses, com maior ou menor obsessão, sonhavam com o tal tesouro, supostamente escondido pelos padres que à pressa deixaram estas terras, expulsos pelo Marquês de Pombal, ministro de D. José I. Desde então e ao longo dos séculos correu a boca pequena que em algum lugar da antiga igreja e colégio dos jesuítas teria ficado uma arca contendo um imensurável tesouro, cujo conteúdo eu não sei mais dizer. Seriam moedas? Alfaias? Tecidos preciosos? Livros e pergaminhos raros? Não me consta que esse detalhe tivesse sido transmitido pela tradição, ou se o foi, não me recordo agora. O certo é que, para não ser encontrada, a tal arca teria de ser deixada algures nos subterrâneos do hoje Palácio Anchieta.          

 

Vamos ver de que se trata. As construções jesuíticas, erigidas em local alto, numa elevação de terreno circundada por um curso d’água doce ou salgada, seguiam um padrão. Abrigando os seus ocupantes inclusive de incursões hostis, deveriam proporcionar meio de evasão que desse numa rota de fuga, pelo rio ou pelo mar. Casa importante que era para a Companhia de Jesus, o colégio de São Tiago de Vitória não era diferente. E assim, até às décadas finais do século XX o interesse pelos famosos subterrâneos não arrefecia. Autores como Francisco Eujênio de Assis, Adolfo de Oliveira, João Nunes Coelho, Adelpho Poli Monjardim e Renato Pacheco falaram deles. Assis, em artigo para o jornal A Tribuna em 1944, reforçou no imaginário popular a ideia de um tesouro enterrado num dos túneis (aparentemente eram quatro) que do Palácio Anchieta saíam para pontos da cidade alta e baixa. Talvez devido a essa série de artigos publicados em A Tribuna(veja-se, a respeito, breve notícia histórica de autoria de Renato Pacheco no n.º 50, de 1998, da Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo) os ânimos se agitaram. Diligências veladas foram levadas a cabo por cidadãos respeitáveis que assim perderiam tempo, dinheiro e em alguns casos a estima de seus concidadãos no desenrolar do processo.

 

Mas refiro aqui fato mais antigo, de logo que entrado o século passado, envolvendo dois elementos de identidade desconhecida (um dos dois, consta, seria forasteiro). Dois elementos de índole duvidosa e reputação idem, foi o que ficou na lembrança, e que se teriam lançado a essa pesquisa incerta. Ora, a identificação provável dos pontos onde iam dar as saídas dos túneis trazia complicações, por ter sido uma delas utilizada para edificação de saneamento lá mesmo, na cidade alta; outra se situar em prédio comercial, já na cidade baixaum terceiro túnel passando por uma praça pública nas cercanias do Palácio, com as entradas laterais devidamente isoladas por grades. Somente outra delas, a critério dos dois, permitia operação de busca que não levantasse maiores suspeitas: a que se situava no Convento de São Francisco – aliás, consta que avistada pelo referido Adolfo de Oliveira, que teria percorrido alguns metros de túnel. O que ignoravam os dois aventureiros é que os padres jesuítas teriam espalhado lá dentro várias armadilhas, devidamente respaldadas por uma maldição que a elas fazia remissão: “quem escapar do laço, não escapará do cutelo; quem desse escapar, não escapará do mundéu que os há de esmagar!”, como registrou Renato Pacheco no texto a que me referi.

 

Escolheram então uma noite de lua cheia para facilitar-lhes a visibilidade. As ruínas do outrora portentoso Convento, o primeiro construído no Brasil pela Ordem Franciscana fora do Nordeste, vinham em abandono desde a inauguração do cemitério em Santo Antônio. O terreno do antigo campo santo, visto assim sob os raios do luar, era uma desolação. Munidos cada um de um archote, depois de algumas diligências identificaram, num recinto que teria sido o pátio do convento, uma abertura ao rés do chão. Iluminando a entrada viram que o túnel prosseguia para adiante e que aparentemente não seria difícil se mover dentro dele. Esgueirou-se túnel adentro o primeiro, munido da tocha, até que minutos depois ouviu-se um ruído surdo, a que se seguiram outros, lembrando esvoaçar de aves; gritou o segundo chamando por ele, mas à falta de resposta seguiu-se o extinguir da luminosidade. O túnel ficou às escuras. Tudo se passou muito rápido: de súbito, grito pavoroso fez com que a tocha do segundo caísse ao chão, apagando-lhe o lume. Sentindo outros esvoaçares acima da cabeça pareceu-lhe ver, projetado pela claridade vinda de fora, um vulto cujas vestes escuras arrastavam pelo chão. Saiu em desabalada carreira e desceu o morro do Convento sem olhar para trás, perdendo-se na noite pelas ruas da Cidade Alta.

Não sei se Adolfo de Oliveira conheceu o tal elemento, cuja identidade persistiu ignorada. O certo é que Adelpho Monjardim não tomou conhecimento do fato, ou o teria contado no O Espírito Santo na lenda, na história e no folclore. Quanto a mim, o soube de fonte segura.